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Debate do Estadão: agora com mais calma…
Passadas pouco mais de 24 horas após o debate promovido pelo Estadão sobre “Responsabilidade e Conteúdo Digital”, incentivado pela polêmica iniciada principalmente por esse que vos fala, vamos as minhas impressões sobre o evento.
Nessa quinta, dia 30, acompanhei diversos posts e comentários em outros blogs sobre o encontro de ontem. O que pude perceber é, que em geral, as pessoas acharam o debate polido, político demais. Aliás, me diverti com os comentários do Brancaleone no blog do Pedro Doria, dizendo que os participantes deveriam ter levado flores, só faltou trocarem presentes.
E eu concordo com quem teve essa percepção. Até porque, isso foi propositado, adequado e educado. Eu, Bruna e Edney nos encontramos um dia antes do debate, e nos propomos a discutir realmente o tema conteúdo digital, ao invés de esbravejar e repetir tudo o que já foi falado sobre a campanha.
Eu não fui ao debate pensando em apontar o dedo na cara de ninguém, e sim para falar do que ficou claro: a maioria dos profissionais de comunicação ainda não sabe lidar com o poder de informação conquistado pelo cidadão não-especialista, portanto, vamos conversar sobre. Conversa que continuou de forma muito agradável depois, em um happy hour no lobby do hotel.
O próprio Estadão, representado pelos profissionais e jornalistas que lá estavam, admitiu em alto e bom som que a campanha passou uma mensagem equivocada e que ela não representa a opinião de todos. Marco Chiaretti, chefe do conteúdo digital do jornal, afirmou, para a platéia e para as câmeras: “Nós estamos aprendendo com vocês”.
Dito isso, pra que estimular uma discussão infrutífera que só iria dar voltas e não chegar a lugar nenhum? Pra que cair no você-disse-eu-não-disse? Sejamos adultos, e não os blogueiros-macacos-raivosos que um ou outro insiste em acreditar.
A proposta de um debate é cada um tenha seu tempo, e esse tempo é curto. Poderíamos passar a noite lá falando, eu mesmo tinha muito mais pra dizer. Mas o debate foi valido, saudável e atingiu o objetivo que eu esperava: colocar o tema em pauta na grande mídia. O Estadão reconheceu o erro, se dispôs a debater e abriu um canal para discussão. Alguns chamam isso de tentativa de “abafar” o caso, eu chamo de conquista.
Não existe uma guerra entre mídia tradicional contra novas mídias. Existe sim uma complementação entre elas, e cada uma cumprindo seu papel. Eu quero continuar sendo o Carlos Merigo, não quero ser uma instituição Brainstorm #9. O meu blog representa a pessoa física e profissional Carlos Merigo. Quero que quem entre nesse blog queira ler minha opinião e visão das coisas. Nenhum blog sério tem a pretensão de suprir a necessidade por alguma outra mídia, e a recíproca é verdadeira.
Acredito eu, que o ponto mais destoante do debate foi o pronunciamento arrogante e retrógrado do Prof. Gilson Schwartz da USP, o que deixou claro que ele é apenas mais um que está contaminado com o estigma que os blogs carregam. Tanto desconhece o assunto, que acreditou que todos estavam em volta daquela mesa para falar de blogs miguxos e fotologs.
Não tive tempo de entrar no assunto, mas gostaria de ter falado que o Second Life, onde o Prof. Gilson acaba de inaugurar a Cidade do Conhecimento virtual, reúne grande parte do lixo da internet, e onde o receptor tem qualidade abaixo da média. Será que a Cidade do Conhecimento virtual deixa de ser válida apenas porque está rodeada do que ele considera lixo?
Por fim, o Pedro Doria citou blogs internacionais, e disse que aqui no Brasil essa mídia colaborativa ainda não alcançou a mesma relevância que lá fora. Concordo. Mas para um dos maiores jornais do país resolver se manifestar, pedir desculpas e reunir blogueiros em um debate pós polêmica criada na blogosfera, significa que o primeiro passo já foi dado.
| Você pode assistir o debate aqui, no vídeo disponibilizado pelo Rodrigo Barba, ou no site do Estadão. Acompanhe também a cobertura do Jornalirismo.
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Engajamento: a nova métrica do marketing
Dentro daqueles milhares de conceitos que aprendemos sobre marketing, um deles diz que o processo de compra é um funil. Baseada no princípio da subtração, essa idéia nos diz que a adoção por uma marca passa primeiro pelo conhecimento, depois consideração, preferência, ação e, enfim, a tão sonhada lealdade. Assim como num funil de verdade, de milhões de pessoas que forem atingidas pela sua comunicação, restarão algumas poucas verdadeiramente aliadas a sua marca.
Só que nos últimos anos o velho funil do marketing sofreu uma inversão, alterando dramaticamente o modo como as marcas são construídas. Hoje conectados em rede, e cada vez mais rejeitando o auto-elogio da publicidade e buscando conteúdo relevante, os consumidores tem uma percepção diferente do que é o valor de uma marca.
É por isso que diversos teóricos e/ou institutos especializados vem tentando desenhar o novo funil, espiral ou que quer seja do marketing. No fim das contas, o que importa é a complexidade que tomou o processo que leva um consumidor a se tornar um evangelista da marca. Resumindo: as próprias marcas não são mais as donas desse controle.
Primeira coisa: consumidores? Não, não senhor. São pessoas. Pessoas que hoje se tornaram micro-segmentos, divididas por interesses, formando comunidades em torno de algo comum. Isso nos leva a considerar, definitivamente, o engajamento como nova métrica do marketing.
Durante muitos anos o objetivo principal de um plano de marketing, de uma comunicação, era gerar conhecimento em massa. Quanto mais pessoas ficarem sabendo do nosso produto ou marca, mais iremos vender. Hoje isso continua até funcionando de certa maneira, mas é a alternativa mais difícil e custosa. Um ciclo vicioso de investimento e retorno que só aumenta.
Portanto, mais do que nunca vale a tentativa de atrair pessoas e engajá-las em torno de algo. Criar envolvimento, interação. É o contato ao invés da intrusão. A troca do awareness pela lealdade de fato. Afinal, não é isso que tanto as marcas desejam?
Como exemplo podemos citar algumas das marcas mais lucrativas dos dias de hoje. Apple, Starbucks, Google, MINI, Guinness, etc. Ao invés de focarem em alcançar consumidores com níveis massivos de conhecimento de marca, elas encontram maneiras de alimentar o engajamento e envolvimento. São marcas que adicionam valor real a vida das pessoas através da experiência com seus produtos, criando uma cultura própria em torno de si e tornando-se verdadeiros símbolos sociais.
Um gráfico divulgado recentemente pelo instituto Forrester Research demonstra a complexidade desse novo funil do marketing, se assim podemos chamar:

Baseado nisso, o theCword propõe simplesmente invertermos o tradicional funil. O resultado é uma pirâmide, não invertida como no conceito original, mas em que o engajamento da marca em torno de uma comunidade poderá gerar diversos evangelista, ao invés de poucos compradores.

Já David Armano do Logic+Emotion, desenhou uma espiral que mais uma vez corrobora a tese do novo mundo das marcas: interação e engajamento criam uma comunidade de advogados da marca.

Como bem disse o Mauro no CarreiraSolo, essa inversão de papéis não é responsabilidade apenas dos avanços da tecnologia, das novas formas digitais de interação entre as pessoas, já que se envolver com uma marca através de evangelistas sempre foi um comportamento humano típico.
Porém, as possibilidades criadas pela tecnologia de unir as pessoas em comunidades e segmentá-las por interesses estão sendo fatores decisivos nessa mudança de conceitos e, principalmente, na maturidade dos consumidores.
| Compare preços: “Dedique-se de Coração - Como a Starbucks se tornou uma grande empresa de xícara em xícara” (Howard Schultz) e “”O Novo Mundo das Marcas” (Scott Bedbury)
Nine Inch Nails | Year Zero
Não é um tema novo, mas acho que o assunto foi tão pouco comentado, principalmente em língua portuguesa, que merece um post aqui no Brainstorm #9. Não apenas por isso, mas também por se tratar de um exemplo real e bem-sucedido de como toda campanha viral deveria ser: uma marca que utilize múltiplas formas de mídia, para permitir que as pessoas espontaneamente se engajem em torno de algo realmente relevante e interessante.
Isso é difícil? Não tem formulinha mágica? Aos olhos de muita gente do mercado parece brincadeira tola de adolescente? Mas funciona, e muito bem. Estou falando da ação que foi orquestrada de forma magistral pela 42 Entertainment para o lançamento do álbum “Year Zero”, o último do Nine Inch Nails.
Assim como a própria 42 criou para o lançamento do game “Halo 2″ da Microsoft, o I Love Bees, trata-se de um ARG (Alternate Reality Game) que inclui uma rede de sites, muito mistério, pistas e mínimos detalhes escondidos ao redor do mundo. Obviamente que, e você já deve imaginar, para isso funcionar é preciso falar com as pessoas certas e, principalmente, falar do jeito certo. Afinal, publicidade sempre foi isso e não vai mudar.
Tudo começou com uma camiseta em um show do Nine Inch Nails, no dia 12 de fevereiro de 2007. Fãs descobriram que a nova camiseta da turnê continha letras destacadas, que juntas formavam a frase: “I am trying to believe.” Claro que, na era digital, a primeira coisa que alguém tentou fazer foi digitar iamtryingtobelieve.com em algum navegador de internet, e voi lá, um site misterioso que discutia os efeitos de uma droga revolucionária chamada Parepin apareceu.

Isso foi o pontapé inicial para uma longa e elaborada perseguição de gato e rato atrás de pistas para decifrar as inúmeras mensagens criptografadas do ARG. Rapidamente, vários outros sites relacionados, e ainda mais misteriosos, foram encontrados. Todos descrevendo uma visão distópica do mundo 15 anos no futuro, ou então eventos que aconteceram no ano 0000, do mesmo modo que a temática do disco “Year Zero” do NIN.
Dois dias depois, em 14 de fevereiro, foi encontrado um pendrive dentro de um banheiro durante um show da banda em Lisboa, Portugal. O fã que o achou se surpreendeu com o conteúdo: uma mp3 em alta qualidade da música, até então inédita, “My Violent Heart”, que em seguida se alastrou rapidamente pela internet. Um pendrive contendo a mesma faixa também foi encontrado em Madri, na Espanha, pouco depois.
E mais: os últimos segundos da música encontrada no dispositivo eram ruídos de estática. Um arquivo com segundos sem som algum? Uma pessoa qualquer ignoraria, mas não um fã da banda e ciente do mistério que estava rolando.
Pois bem, o trecho de estática foi analisado através de um espectrograma, e revelou uma imagem semelhante a um braço se estendendo do céu. Esta imagem foi chamada posteriormente de “The Presence” e esteve presente (com o perdão do trocadilho) tanto no trailer como na capa do disco.
Já em Barcelona, no dia 19 do mesmo mês, um fã encontrou outro pendrive com mais dois arquivos de áudio: um era a música “Me, I’m Not”; o outro era um arquivo mp3 completo de estática.
Submetida a análise com um espectrograma, a faixa revelou nada menos que um número de telefone: 1-216-333-1810. Ao ligar para este número era possível ouvir uma conversa de telefone captada clandestinamente. Além disso, outra camiseta da turnê trazia letras em negrito que formavam outro telefone: 1-310-295-1040. Ligando para o número, era possível escutar um trecho da música “Survivalism”.

Para revelar a capa do disco, uma mensagem subliminar foi adicionada a um teaser trailer exibido no mini-site do Year Zero. No vídeo, uma rápida aparição de uma placa rodoviária azul mostrava a mensagem “I am trying to believe” e a imagem “The Presence” distorcida. Além disso, pausando em um frame determinado do teaser, era possível ver a URL yearzero.nin.com/0024, domínio esse que trazia uma imagem nomeada como yearzero_cover.jpg.
Um outro pendrive, encontrado no dia 25 de fevereiro, em Manchester, Inglaterra, continha um arquivo de imagem intitulado “invitation.jpg”. No mesmo dia, mais um pendrive foi descoberto, com a música “In This Twilight” e uma imagem do letreiro de Hollywood destruído, que acabou levando os fãs para um site chamado Hollywood in Memoriam.
No dia 3 de março, a música “The Beginning Of The End” tocou “inesperadamente” na rádio KROQ durante a madrugada. E logo após, vazou na internet em mp3 de alta qualidade. No dia 7 do mesmo mês, um outro pendrive encontrado trouxe o clipe da música “Survivalism”, vídeo esse que em diversos frames exibia mensagens e URL’s criptografadas.
Enquanto o disco ia sendo revelado assim, a conta-gotas, a história ficcional ia sendo contada ao mesmo tempo, envolvendo os Estados Unidos, grupos terroristas, ataques biológicos, governos ditadores, milícias xiitas, etc. Confira a cronologia de toda a história aqui. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência…
No dia 4 de abril de 2007, o disco inteiro foi disponibilizado no site oficial para audição via streaming. A faixa 13, “The Great Destroyer”, trazia uma voz computadorizada em determinado trecho. Quando os canais estéreo esquerdo e direito eram combinados em um simples canal mono, a voz dizia as palavras: “red horse vector”, levando os fãs ao site redhorsevector.net. Na faixa 14, “Anoter Version Of The Truth”, era possível ouvir um código morse que dizia: “grace the teacher”, apontando para o site graceteacher.net
Uma reunião chamada “Art is Resistance” foi marcada em Los Angeles, através do site Open Source Resistance. Os participantes eram convocados a vestir algo para mostrar que faziam parte do movimento. O kit da reunião continha buttons, posters, stencils, bandanas e cerca de 25 cases com telefones celulares pré-pagos, nos quais os participantes recebiam ligações com mais pistas.
Do dia 13 ao dia 25 de abril, o álbum “Year Zero” foi lançado na Europa, Austrália, Reino Unido, Estados Unidos e Japão. O disco saiu em embalagem digipack, trazendo um adesivo com o número 1-866-445-6580. O CD em si tinha uma de suas faces termocromáticas, que quando aquecida ao ser tocado revelava uma seqüência binária indicando diversas URL’s (vídeo demonstrando o efeito).

Finalmente, no dia 27 de abril, os “membros” da “Art is Resistance” receberam ligações automáticas via celular com uma mensagem que indicava a Hour of Arrival (hora da chegada). A ligação marcou o fim do jogo, dizendo “we’ve got to go dark for a while, but that is ok - you don’t need us anymore.”
Percebam que foram vários parágrafos até aqui, mas eu não contei e nem detalhei diversas partes desse ARG fantástico. Se tiver interesse, confira toda a timeline da campanha e todos os sites e números de telefone que fizeram parte da história.
No meio de tudo, Trent Reznor ainda comprou briga com a RIAA (Recording Industry Association of America), que o acusou de estar incentivando a pirataria por distribuir música por “meios alternativos”. Reznor respondeu: “Os drives USB são simplesmente um mecanismo de carregar música e dados para onde nós quisermos. A mídia CD ficou antiquada e irrelevante. Realmente é dolorosamente óbvio o desejo das pessoas: músicas livres de DRM (Digital Rights Management) com a qual elas podem fazer o que quiserem. Se a gananciosa indústria da música abraçasse essa idéia, eu acredito verdadeiramente que as pessoas pagariam e consumiriam mais música.”
Mas Reznor não gosta de chamar o ARG para lançar seu disco de marketing, segundo ele, é mais do que uma mera brincadeira para fazer as pessoas comprarem um disco, é uma experiência para os fãs, uma verdadeira forma de arte.
“Year Zero”, assim como diz o nome, é mais um desses novos marcos que temos visto nos últimos tempos, não só na indústria da música, como também na da propaganda. É um grande exemplo da linha tênue que pode existir entre o marketing e o entretenimento, que engaja as pessoas ao invés de incomoda-las, que as conquista antes de vender algo. Sei que repito esse discurso muitas vezes nesse blog, mas vendo ações assim serem executadas com sucesso, não tem como ser diferente.
The Fundamental Templates of Quality Ads
Em seu mais recente post, o amigo Fábio Seixas citou um estudo chamado “The Fundamental Templates of Quality Ads”. Uma pesquisa que revela seis modelos básicos em que para uma propaganda ter sucesso, supostamente, ela precisaria estar encaixada.
O estudo, relizado em 1999, reuniu um grupo de 200 anúncios bem-sucedidos, ou seja, que foram finalistas e vencedores nas maiores competições de propaganda. Desse montante, foi descoberto que 89% das peças poderiam ser classificadas em seis categorias básicas.
| Modelo de Analogia Pictória: Apresenta analogias extremas de uma maneira visual;
| Modelo de Situações Extremas: Onde um produto é mostrado em situações incomuns ou o atributo do produto é exagerado ao extremo;
| Modelo de Conseqüências: Onde aponta conseqüências inesperadas de um atributo do produto;
| Modelo de Concorrência: Onde um produto é mostrado como vencedor de uma competição com outro produto, em geral em uma situação de uso incomum;
| Modelo de Experiências Interativas: Onde os espectadores interagem diretamente com o produto;
| Modelo de Alteração de Dimensionalidade: Onde as dimensões do produto são manipuladas em relação ao ambiente.
No mesmo estudo, os pesquisadores tentaram utilizar os seis modelos para classificar outros 200 anúncios (das mesmas publicações e para os mesmos tipos de produtos) que não receberam prêmios. Supreendentemente, quando os pesquisadores tentaram classificar esses anúncios “de menor sucesso”, só conseguiram fazer de 2% deles.
Esse tipo de classificação não é nova. Roberto Menna Barreto, em seu livro “Criatividade em Propaganda” de 1982, por exemplo, já havia definido a criação publicitária em categorias, falando de aventura visual, hard-sell, ambiente onírico, e etc. Aliás, já comentei deste livro diversas vezes desde que o Brainstorm #9 começou e o coloco como biblioteca básica para qualquer estudante de comunicação.
Agora, é realmente impressionante que os anúncios premiados em festivais se encaixem quase que em sua totalidade dentro da classificação. É para se pensar, conhecer, mas acho perigoso. Pois esse tipo de pesquisa enviesa as pessoas ao comodismo, abraçando-as como se fossem receitas de bolo. Lembre-se, não existe receita para se fazer boa propaganda. Cada caso é um caso, cada problema é um problema.
O Fábio selecionou exemplos de comerciais que estão dentro dos seis modelos básicos, dê uma olhada.
“Brazilian scam ads”
| UPDATE 12:54: A pedido de seus autores, as peças foram retiradas.
O leitor Bruno Pieroni, que trabalha em criação nos EUA, me enviou um e-mail está manhã comentando como o Brasil virou sinônimo de publicidade fantasma lá fora.
“Sou um dos seus leitores do Brainstorm #9 aqui no exterior, e freqüente comentarista dos seus posts. Na verdade, se você rever os meus comentários, vai ver que uma questao que me deixa realmente de cabelo em pé é como blogs respeitados (e neste eu incluo, claro, o seu) ainda abrem espaço para publicidade que é obviamente fantasma e só faz difamar a profissão ou nossos profissionais.”
Respondi ao Bruno que a intenção do Brainstorm #9 é mostrar criatividade, idéias que sejam boas e/ou inovadoras e mereçam ser divulgadas, sem que precisamente tenham que ser veiculadas para isso. Além disso, se considerarmos a situação atual no Brasil, acho que os blogs publicitários ficariam sem conteúdo se fossem publicar apenas o que é “real”.
Mas a questão dos fantasmas sempre vem a tona quando os grandes festivais publicitários se aproximam, leia-se Festival de Cannes em junho. Peças brasileiras se espalham como praga em imagens photoshopadas, na tentativa de angariar um Leão qualquer.
Acho ruim a falta de honestidade ao divulgar essas criações, mas não que elas não devam ser mostradas, afinal, as melhores idéias sempre ficam na gaveta.
Veja abaixo dois exemplos do que os publicitários gringos chamam de “brazilian scam ad”, e claro, deixe sua opinião nos comentários.
[[ a pedido de seus autores, as peças foram retiradas ]]
Ya! Dog, Guaraná Antarctica e Sandy
Essa é para causar arrepios naqueles que estão preocupados com a ética nesses tempos de marketing invisível, viral e de guerrilha.
No programa Ya! Dog da MTV, na última sexta, a VJ Luisa Micheletti anunciou uma entrevista com um tal Miro Bittencourt, cientista que teria encontrado fragmentos de uma caixa misteriosa e contaria a polêmica de uma empresa que propõe a internacionalização da Amazônia.
Sim, essa história você já conhece. É o ARG de Guaraná Antarctica, Zona Incerta, que está sendo desenvolvido pela Editora Abril.
Toda a entrevista foi dada como se fosse real, e a apresentadora fazia indagações e mostrava matérias (incluindo um longo vídeo de protestos contra Bush, também como parte do ARG) como se história e personagem fossem reais. Nenhuma menção a produto ou marca foi feito.
É óbvio que com alguns poucos cliques pelos sites que compõem o ARG, descobre-se logo tratar-se de uma ação de marketing do refrigerante. Mas para quem questiona os limites da publicidade e considera esse tipo de iniciativa manipulação e enganação do consumidor, como muitas pessoas acusaram a ação “The Uncles” da Nissan, a atitude pode ser preocupante.
Como eu já disse outras vezes, olho essas ações por outro prisma. Acho grave demais chamar isso de “enganar o consumidor”, é uma brincadeira e entra no jogo quem quer. Mas o outro lado da questão, é que muita gente vai ver, acreditar e levar a sério, como já fez o senador Arthur Virgílio.
Agora, problema mesmo é constatar o nível do público do programa da MTV. Com a proposta de falar de “entretenimento digital”, o que se resume a mostrar as “coisinhas legais da internet”, o Ya! Dog trata tudo de forma superficial e nunca leva uma discussão até onde ela mereceria ser levada.
Levantam a bola da privacidade na internet, de compartilhamento de conteúdo, etc. A apresentadora lê meia dúzia de comentários estúpidos no blog do programa e conclui: “É gente, é complicado mesmo. Vamos ver esse joguinho aqui…”
Ah claro, e depois ainda tem depoimento da Sandy, aquela do Júnior, dizendo que a internet com músicas sendo distribuídas por todo canto “prejudica os artistas”.
Existe ética no marketing viral? [UPDATE]
| UPDATE: 30/03/2007 - 14:54
Como apontaram o DelRey e o leitor Fábio Scaico, o caso do senador pato virou notícia nacional. Saiu na Folha, no Terra e no G1.
O mico foi tanto, que o senador Arthur Virgílio foi convidado pela Ambev, proprietária da Guaraná Antarctica, para participar da segunda fase do ARG, segundo revelou uma nota oficial de sua assessoria.
Quanto a Agência Amazônia, que eu tinha dito ser falsa, me enganei. O site é realmente verdadeiro, mas não se sabe a relação deles com a ação.
O ARG, Zona Incerta, está sendo desenvolvido pela Editora Abril, sob encomenda da Ambev.
———
Uma estratégia viral, com elementos de ARG (Alternate Reality Game), do Guaraná Antarctica, está causando polêmica não só na internet, como também na “vida real”.
Na última terça, motivou um discurso acalorado do senador Arthur Virgílio no plenário, que, sem saber tratar-se de uma ação publicitária, expôs o caso da Arkhos Biotech, uma suposta multinacional de biotecnologia que está propondo que a Amazônia seja internacionalizada e tenha proteção privada.
Arthur Virgílio informou que viu a notícia, publicada com grande destaque, no site Agência Amazônia, e classificou a proposta de “extremamente grave” e lamentou a “declaração ofensiva ao Brasil”.
Também como parte do ARG, o site Zona Incerta faz acusações contra a Arkhos Biotech, que entre outras coisas, está tentando “codificar a fórmula do Guaraná Antarctica, um segredo que hoje vale milhões.” Gastão Bittencourt, que “escreve” no Zona Incerta, pede ajuda para encontrar pistas, recuperar a fórmula e expor as reais intenções da Arkhos Biotech.
Vários vídeos sobre a Arkhos e os personagens do Zona Incerta podem ser encontrados no YouTube. Incluindo o polêmico “documentário” que pegou o senador.
Para quem é macaco velho desse tipo de iniciativa, a presença de uma marca em um site misterioso já entrega a intenção publicitária. A coisa piora quando os domínios arkhosbiotech.com e zonaincerta.com estão registrados pela mesma empresa, apesar de hospedados em servidores diferentes.

Mas algo a se admirar é o site, também falso, da Agência Amazônia. Meticulosamente criado para simular um portal de notícias, até com anunciantes e outras notícias genéricas. [update]: Ao contrário do que afirmei, a Agência Amazônia é real, não se sabe a relação deles com a ação.
A ação envolve mistérios e um tema que é tabu para os brasileiros, por isso mesmo pode ser que consiga engajar a participação de diversas pessoas na busca pelas pistas que propõe. Até porque, o Guaraná Antarctica veiculou um anúncio impresso misterioso em revistas.
Mas questões levantadas pela leitora carioca Vanessa Franquilino, que me indicou a campanha, expõe um aspecto que está sendo cada vez mais discutido toda vez que surge uma iniciativa como essa: Existe algum tipo de ética no marketing viral?
Eu sou sempre defensor das idéias ousadas, adoro investidas publicitárias que tentam engajar o consumidor de alguma maneira, como utilizando um ARG, por exemplo. Não sou partidário da corrente que diz que esse tipo de campanha engana o consumidor, que abusa da boa fé das pessoas para divulgar algum produto. Mas, temos que pensar nas conseqüências.
Se lembrarmos dos ARG’s mais recentes, eles eram declarados que envolviam algum tipo de marca. Como o do filme Interligência Artificial, o famoso Lost Experience, Fiat UnaPassione e MTV Instituto Purifica.
Nos casos do Guaraná Antarctica e do recente “The Uncles” da Nissan, as marcas são bem camufladas, e a proposta é realmente não revelar a intenção de cara. Algumas pessoas sacam, outras não.
Assim como o senador caiu na brincadeira, o próximo pode ser você. Sendo assim, fica a pergunta: Existe limite para o marketing viral?
Blogs viraram tablóides
Nos últimos dias, vários membros da blogosfera nacional tem feito um papelão em torno de um dos crimes mais hediondos que se tem notícia. Tudo na intenção de angariar algumas migalhas a mais.
Verdadeiros urubus atrás da carniça, a espreita pela próxima tragédia para publicar um post pega-trouxa em seus blogs.
Não condeno esse tipo de atitude totalmente, desde que embasada por um conteúdo. Mas não sobre isso, não sobre esse assunto. Uma coisa é se revoltar contra a Cicarelli, publicar fotos da Jennifer Aniston nua, pagando um peitinho. Outra, completamente diferente, é explorar esse tipo de acontecimento.
Justo nós, que nos auto-declaramos a revolução da mídia, a democratização da informação, estamos imitando os piores expedientes da mídia televisiva e impressa. Muitos blogs viraram tablóides, atrás do próximo escândalo para “vender” mais edições.
E o pior é que não são só eles. Sempre que acontece algo revoltante assim, aparece algum publicitário querendo tirar proveito e dar uma de bom samaritano: “precisamos fazer alguma coisa”. Sim, precisamos, mas não é com auto-promoção que vamos mudar o mundo.












