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Spoiler alert: a culpa do “final ruim” é sua!

Devíamos ligar tanto para spoilers, afinal?

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A humanidade escreve há pelo menos 5000 anos. E já escreveu sobre tudo o que você possa imaginar. A criação de histórias, então, é ainda mais antiga. E, de alguma forma, toda nova história contada hoje, seja uma piada numa roda de amigos ou a sua série favorita, estabelece uma relação com um texto mais antigo, seja para interpretá-lo ou copiá-lo, seja para concordar ou discordar com a ideia. Mas isso não sou eu quem diz isso (diabos, eu não sou o autor do texto?), e sim o conceito de dialogismo da linguagem, descrito por Bakhtin.

Acabada a parte acadêmica do texto, vamos logo falar sobre a cultura pop e a irritante mania das pessoas odiarem o que se chama de spoiler. E sim, este texto está recheado de spoilers. Espero que até o fim dele, você não dê a mínima para este aviso, como eu não dou.

Em uma dessas discussões de bar, comentávamos sobre “Breaking Bad”, uma série que eu considero extremamente acima da média em relação ao que se produz para TV. É óbvio que parece bobagem dizer isso depois de assistir ao capítulo final, mas convenhamos: quando foi que você descobriu que o final de Walter White seria a morte, esta inevitável vilã de toda a humanidade? Quando foi que você descobriu que todos os personagens – sem exceção – que cruzaram o seu caminho iriam acabar invariavelmente morrendo ou sofrendo e “pagando pelos seus pecados”? No momento em que morreram? Mesmo?

Essa história já foi contada antes, e isso não é desmerecer em nada o trabalho brilhante do criador da série. Um homem que constrói um império do qual só se vê ruínas? A própria série nomeia o seu antepenúltimo episódio com o título de um poema escrito no século XIX, Ozymandias, que fala justamente sobre o maior dos faraós egípcios e as ruínas que são a única evidência do que foi o seu tempo de glória.

As tragédias gregas ensinam que, mais importante que não conhecer o fim, é a condução da história e as motivações dos personagens

A estrutura de crime e castigo da série é quase tragédia grega pura: tanto aqueles que ousaram desafiar Walter White (aqui representando um rei) como aqueles que ousaram desafiar a lei (aqui representando a lei maior, a dos deuses gregos) invariavelmente morreram ou se f***ram. Uma boa tragédia grega que aponta esta inevitabilidade do sofrimento é Antígona, de Sófocles. Ao questionar a lei de seu rei, Antígona morre. Ao questionar a lei dos deuses, o rei vê sua família e seu legado ruir.

A tragédia grega tinha um intuito bastante simples: ao conduzir uma história que poderia descrever os sentimentos e motivações de quase todas as pessoas e apontar o seu fim trágico, o patrocinador das peças gregas – o estado – ensinava que aquele que desafiasse o governo ou os deuses teria um único destino óbvio. Por isso, mais importante que não conhecer o fim (aquele monte de gente morta era o resultado de toda e qualquer tragédia) era a condução da história e as motivações dos personagens. Era isso que melhor conversava com o público e suportava a lição.

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Essa história já foi contada antes, e isso não é desmerecer em nada o trabalho brilhante do criador da série

Ou seja: era possível apontar o destino dos personagens de “Breaking Bad” logo em sua primeira temporada, assim que foi possível identificar tais referências no ótimo texto de Vince Gilligan e companhia. E houve quem “não gostou” do final, como se o que importasse fosse o fim, e não o caminho percorrido pela história.

Obviamente, são muitas as referências e clichês que podem ser utilizados em um mesmo texto. E referências existem para serem incorporadas ou questionadas. Em outra série muito interessante em condução de história, “True Detective” “pecou” segundo muitos fãs por um fim menos conspiratório: quando parecia que as mortes envolviam todo o alto escalão do governo estadual, chegou-se a um último, mas único, monstro. E por que a surpresa? Não se aprendeu nada com os discursos de Rust Cohle sobre a vida? Não há grand finale da vida, mas sim a aceitação de que ela acaba das maneiras mais banais. Isso ele diz logo no primeiro episódio. O homem é o lobo (ou o vilão) do homem, e não os aliens, os deuses, a natureza sobrenatural ou forças ocultas que nos governam.

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Não há grand finale da vida, mas sim a aceitação de que ela acaba das maneiras mais banais.

A gente espera um final clichê feliz ou espetacular (afinal, a felicidade não é espetacular?), mas a vida nos dá o que pode. Textos (e filmes e séries) funcionam assim. Se derem um final feliz, a gente vai reclamar que ele é óbvio. Se não derem, a gente vai reclamar que não é como esperávamos. Ainda não lhe convenci que o final não importa?

Vamos a “How I Met Your Mother”, uma série que nasceu de um questionamento central – quem é essa mãe e como eles ficam juntos – mas contou apenas as histórias paralelas: idas e vindas de Ted e Robin, Marshall e Lily consolidando um casamento com altos e baixos, Barney amadurecendo tardiamente, mas casando antes que Ted, o personagem mais tradicionalista de todos. Na trajetória, garantiu boas risadas contando situações cotidianas de um estilo de vida cosmopolita.

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“é como se então de repente eu chegasse ao fundo do fim, de volta ao começo”

A maior chateação de todos foi perceber que a mãe, no entanto, não estaria viva em 2030. Eu também fiquei chateado. Aí, fica claro que Ted contou toda a história para os filhos para justificar um possível novo caso. E por que não? Finais felizes são realmente esperados, sempre, mas são aqueles que os questionam de alguma maneira (nem ouso dizer que o final de “How I Met Your Mother” não é feliz) que nos fazem atentar para elementos que deixamos de acompanhar com mais detalhe em toda a trajetória. Exatamente: minha primeira reação ao assistir o último episódio foi querer assistir ao primeiro e pescar naquele episódio as cenas que abriram esta bem sucedida série. Como já cantava Gonzaguinha, “é como se então de repente eu chegasse ao fundo do fim, de volta ao começo”.

“Forrest Gump”, um filme que eu gosto muito, realiza uma narrativa semelhante: fica ali o Tom Hanks contando tudo o que fez pensando no grande amor de sua vida, aí ele vai correndo encontrá-la em Savannah, mas ela morre antes do filme acabar. O curioso é que o filme oferece, desta maneira, mais minutos de amor que um mero final feliz poderia dar, mas Jenny morre e só assim nós atribuímos maior valor para tudo o que eles viveram diante de grandes acontecimentos da História norteamericana. O filme, no entanto, não esconde os seus maiores clichês: o da superação do protagonista em diversos momentos de dificuldade e o da indestrutibilidade do grande amor.

Concluindo: há muito para se assistir num filme ou numa série que não seja uma linha reta para o final. Por isso, se posso deixar um conselho sincero, pare de ligar para essa rasa cultura de evitar os spoilers. Todos sabemos que um dia vamos morrer, e nem por isso deixamos de nos divertir e de nos emocionar, certo?

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COMENTE
  • Carlos

    Cara, que texto lindo. Como roteirista, comumente me deparo com “bloqueios criativos” para chegar num bom final. Como finalizar a história da melhor forma?

    Mas a realidade é isso que você falou mesmo. A VIDA não está no objetivo a ser alcançado (o ponto final), mas no PROCESSO PERCORRIDO. O final é importante, mas maior do que ele, é o caminho que trilhamos.

    Seu texto fica ainda melhor com o último parágrafo. Você conclui falando que não devemos nos importar com spoilers. No primeiro momento, pensei: “poxa vida, com um texto tão bom, ele termina falando disso?”

    Mas aí, depois de alguns segundos, percebi. “Ele acaba de me provar exatamente tudo que discorreu durante todo o artigo.”

    O caminho já foi trilhado, e isso que importa.

    Meus mais sinceros parabéns.

  • Bruno R.

    concordo com vários dos seus argumentos, mas não consigo concordar com a ideia central, de não ligar para spoilers.
    realmente acho que essa preocupação com o final de uma história, que ele seja mais isso ou aquilo – mais misterioso, mais romântico, mais explicativo, mais revelador – é muito menos importante do que o desenrolar dela. ou pelo menos deveria ser, pois geralmente é assim com as grandes histórias.
    mas, sobre os spoilers, sobre ficar sabendo de antemão o que vai acontecer, não gosto. e o motivo principal é que eu quero a experiência completa. as séries, os filmes, os livros, e até mesmos muitos dos discos são criados para que você tenha uma experiência. participar disso, imergir nisso desde o começo, saboreando como se deve todo o meio e chegando ao fim tirando suas próprias conclusões e satisfazendo ou não suas próprias expectativas, é, pra mim, algo essencial em relação a esse tipo de entretenimento e/ou manifestação artística.
    o spoiler pode não ser assim tão arrasador, mas o simples fato de uma informação externa poder arranhar (ou arruinar completamente) a experiência que uma obra como essas produz já faz com que eu prefira saber pelas vias naturais, pelo próprio autor dentro da obra, e não por alguém de fora. senão, corre-se o risco da experiência não ser completa e é aí que perdemos detalhes preciosos que fazem toda a diferença, independentemente do que o final vai nos trazer.

  • Dico Didiraja

    Merigo, acho que não faz sentido seu argumento pra justificar seu ponto. Veja bem, me esquivar de spoiler não tem a ver com o final de uma série/filme/jogo ser bom/ruim ou previsível/imprevisível.

    É querer manter a experiência inalterada até que determinado fato ocorreu. Porque presumo eu, que o autor escreveu a história e determinado momento bombástico justamente pensando que você não saberia daquele fato, o spoiler atrapalha até a percepção da pessoa com aquela obra. Se eu já sei que no começo do filme que fulaninho vai morrer, como o suspense dessa morte ou o impacto dela vai me afetar se eu já sabia?

    De qualquer maneira, acho que spoiler é algo pessoal e só a pessoa que usufrui daquela mídia pode decidir isso. O outro não é ninguém pra dizer o quanto aquele fato é importante ou não, só você pode decidir isso. Você tem direito de não reclamar de spoilers, ok, mas acho completamente egoísta quem não respeita (não dizendo necessariamente que você o faz, nem sei se é o caso) a decisão do outro de se privar de surpresas de antes do MOMENTO PROPRICIO para tal surpresa. Larguei TWD e não assisto GoT porque vejo que a fanbase é um bando de egoistas que só ficam feliz quando citam tudo q aconteceu no último episódio e foda-se se você não pode ou quis ver assim que saiu.

    “Ah o que importa é a jornada” Outra coisa que considero pessoal e até meio abstrato. Existem casos que concordo com isso, outros que o final incomoda toda experiência.

    • Vicente

      Perfeita colocação. Talvez eu tenha entendido errado, mas acho que o autor reduz o significado de spoilers às eventuais mortes ou realmente o final da trama. Pra mim spoiler é tudo aquilo que eu ainda não vi e pode, de alguma forma, interferir na minha experiência de assistir os episódios. Eu li o texto, mas pulei as partes que falam de séries que eu não vi e gostaria de ver. Acredito que o autor não seja um egoísta, pois destacou em negrito os nomes das séries para facilitar a visualização. Mas de todo modo, eu concordo com o comentário acima e repudio qualquer um que dê spoilers de graça. Isso pra mim é um desrespeito,

    • Daniel vale

      Spoiler Alert: Não foi o Merigo que escreveu o texto…

  • http://twitter.com/rodrigot rodrigot

    mesmo que vc julgue a jornada mais importante que o final, isso não torna o final irrelevante.

  • Alvaroniten

    Vou te dizer que tenho mais problemas com spoilers sobre as viradas e surpresas de roteiro, do que com o final em si das obras. O que é potencializado quando a surpresa é o final, como nos filmes “6º Sentido” e o “Som ao Redor”, por exemplo.
    Não fico muito de mimimi, mas procuro evitar.

  • ad-maru

    E se o Walter não tivesse morrido?

    Pelo seu texto, sua expectativa seria quebrada.
    E sabendo de antemão, essa surpresa lhe seria tomada.

    E boa parte da graça está aí. Tanto no humor, quanto no drama.
    A expectativa subvertida. A expectativa superada.

    Ok, não pensemos sobre um final, mas sobre um cliffhanger. Imagine saber sobre o We Have to Go Back do Jack antes do final da terceira temporada de Lost.

    Ou pensemos sobre capítulos isolados. Imagine saber o final de Blink em Doctor Who, ou os cenários do Remedial Chaos Theory de Community. Isso é alguém lhe roubando catarses. Catarses não são informações isoladas, mas construídas, conduzidas. Por isso a informação fora da narrativa não vai ter o mesmo impacto.

    Spoiler, como sugere a tradução do termo, não é sobre finais. Mas é sobre aquilo que pode estragar sua experiência, diminui-la, capá-la, .

  • Pedro Hutsch Balboni

    Luiz, confesso que comecei o texto lendo os comentários, assim que vi que o primeiro spoiler seria justamente sobre Breaking Bad, série que ainda não consegui assistir e tem me deixado fora de várias conversas (opção minha). Nos comentários, peguei a dica de ler pulando parágrafos de coisas que ainda não vi – o que considero desastroso para ler algo, maaaas… eu realmente queria evitar os spoilers. Gostei bastante do que li, mas é um ponto de vista; apesar de me agradar discursivamente, acho que não dá pra generalizar (nunca dá… nem quando falamos que “nunca” dá). Existem muitas coisas que não me importo mesmo de saber algo que supostamente ainda não deveria saber, mas em outras tantas me importo sim. Acho que essa “cultura do spoiler”, ou sei lá como que a gente pode chamar esse estardalhaço todo que se faz hoje para evitar surpresas fora de timming, é bastante válido. Nos dá a chance de filtrar com mais consciência – algo fundamental em um mundo super-exposto, da informação que transborda. O que fazer, e o quanto se importar, fica a critério de cada um – caso consiga evitar as conversas paralelas, os spoilers que estão desde os primórdios por aí. Como um argumento geral, concordo 100% contigo: saber do final não deve inibir a caminhada, e é nela que as coisas realmente acontecem.

    Resolvi comentar aqui quando li o primeiro parágrafo, sobre tudo já ter sido dito, não existe surpresa se a história não é realmente nova… estou com um projeto no Catarse que aborda essa temática, o “Tudo Já Foi Dito” – esse tema tem rondado bastante minha cabeça, assim como deve acontecer com todo mundo que escreve ou cria, de alguma maneira. (se quiser espiar lá, segue o atalho: http://catarse.me/pt/tudojafoidito)

    Ah sim, para não deixar de evidenciar a contradição irônica do que eu disse: comecei lendo seu texto de traz pra frente, de certa forma; um spoiler que achei necessário! :)

  • http://www.facebook.com/leoprozczinski Leonardo Prozczinski

    Quem dera eu pudesse assistir Star Wars sem saber que o Darth Vader é pai de Luke e Leia.

  • Carlos Carvalho

    Concordo em alguns pontos com o Yassuda, mas também acho (como disseram nos comentários) que o texto ficou meio reduzido ao “final como spoiler”, quando na verdade spoiler não é necessariamente sobre o final, mas sobre a ruína de alguma experiência. Principalmente quando é utilizada alguma ferramenta pelo criador da história para esconder essa informação e revelá-la apenas no momento em que ele julgou ideal para que as pessoas reagissem de alguma forma.

    Fiz um texto há pouco tempo sobre essa cultura dos spoilers e até cito nele a ideia de spoiler que o Merigo usou com o Saulo em um Braincast quando este, ao comentar sobre House of Cards, bateu duas vezes na mesa assim como o personagem do Kevin Spacey faz.

    Deixo aqui o link para quem se interessar pelo texto e para entender um pouco melhor como funciona a nossa relação com essa cultura dos spoilers mesmo: http://setimacena.com/artigos/cuidado-spoilers/

  • Leonardo Lopes Carnelos

    Caro,
    Concordo plenamente com o fato do final ser supervalorizado. Também acho que a jornada é mais importante que o destino, exceto naqueles pouquíssimos filmes que desenham todo um cenário para te surpreender no final com um plot twist, muito comuns em filmes de terror e mistério. Mas veja, eles são a minoria das histórias que vemos por aí.

    Quanto aos spoilers, eu já discordo completamente da sua opinião. Quando estamos falando de arte, e não só filmes e seriados de TV, eu sou a favor de não saber absolutamente nada a respeito da obra nem do artista antes de apreciá-la pela primeira vez. Isto me dá uma grande oportunidade de apreciar uma obra de arte livre de conceitos prévios mastigados por terceiros e que não necessariamente eu concorde. Eu prezo demais pela minha primeira impressão sobre uma obra de arte, ela é a mais importante para a formação da minha opinião sobre a mensagem do artista.

    Exemplificando: se alguém tivesse me dito que Edward Hopper era o pintor da melancolia, eu não teria notado outras nuances em seus quadros. Se alguém tivesse me dito o background da Abertura 1812 de Tchaikovsky, eu não teria identificado sozinho trechos da Marselhesa nem tampouco o ataque da cavalaria embutidos na música. Se alguém tivesse me dito que 2001, uma Odisséia no Espaço era um filmes sobre alienígenas, talvez eu não percebesse que o monolito é a personificação do desconhecido, e que portanto um religioso possa interpretá-lo como algo divino, e um cético pode interpretá-lo como um artefato alienígena, ou seja, interpretações diferentes de acordo com as crenças de cada um. Se eu soubesse o final de O Sexto Sentido, eu assistiria o filme procurando furos no roteiro ao testar a tese do seu final, ao invés ser levado pela obra e ter uma catarse no final. E assim por diante, os exemplos são inumeráveis.

    Depois que eu formo minha opinião, aí sim eu busco informações sobre a obra, artista, além de opiniões diversas sobre o assunto e sempre acabo apurando minha opinião, mas sempre com a essência da experiência purista livre de informações a priori.

    Resumindo, evitar spoilers pode ser uma cultura rasa quando se trata de entretenimento barato, mas quando falamos de obras de arte, ela é fundamental.

    Sds
    Leonardo Carnelos

  • Leonardo Lopes Carnelos

    Caro,
    Concordo plenamente com o fato do final ser supervalorizado. Também acho que a jornada é mais importante que o destino, exceto naqueles pouquíssimos filmes que desenham todo um cenário para te surpreender no final com um plot twist, muito comuns em filmes de terror e mistério. Mas veja, eles são a minoria das histórias que vemos por aí.

    Quanto aos spoilers, eu já discordo completamente da sua opinião. Quando estamos falando de arte, e não só filmes e seriados de TV, eu sou a favor de não saber absolutamente nada a respeito da obra nem do artista antes de apreciá-la pela primeira vez. Isto me dá uma grande oportunidade de apreciar uma obra de arte livre de conceitos prévios mastigados por terceiros e que não necessariamente eu concorde. Eu prezo demais pela minha primeira impressão sobre uma obra de arte, ela é a mais importante para a formação da minha opinião sobre a mensagem do artista.

    Exemplificando: se alguém tivesse me dito que Edward Hopper era o pintor da melancolia, eu não teria notado outras nuances em seus quadros. Se alguém tivesse me dito o background da Abertura 1812 de Tchaikovsky, eu não teria identificado sozinho trechos da Marselhesa nem tampouco o ataque da cavalaria embutidos na música. Se alguém tivesse me dito que 2001, uma Odisséia no Espaço era um filmes sobre alienígenas, talvez eu não percebesse que o monolito é a personificação do desconhecido, e que portanto um religioso possa interpretá-lo como algo divino, e um cético pode interpretá-lo como um artefato alienígena, ou seja, interpretações diferentes de acordo com as crenças de cada um. Se eu soubesse o final de O Sexto Sentido, eu assistiria o filme procurando furos no roteiro ao testar a tese do seu final, ao invés ser levado pela obra e ter uma catarse no final. E assim por diante, os exemplos são inumeráveis.

    Depois que eu formo minha opinião, aí sim eu busco informações sobre a obra, artista, além de opiniões diversas sobre o assunto e sempre acabo apurando minha opinião, mas sempre com a essência da experiência purista livre de informações a priori.

    Resumindo, evitar spoilers pode ser uma cultura rasa quando se trata de entretenimento barato, mas quando falamos de obras de arte, ela é fundamental.

    Sds
    Leonardo Carnelos

  • Leonardo Lopes Carnelos

    Caro,
    Concordo plenamente com o fato do final ser supervalorizado. Também acho que a jornada é mais importante que o destino, exceto naqueles pouquíssimos filmes que desenham todo um cenário para te surpreender no final com um plot twist, muito comuns em filmes de terror e mistério. Mas veja, eles são a minoria das histórias que vemos por aí.

    Quanto aos spoilers, eu já discordo completamente da sua opinião. Quando estamos falando de arte, e não só filmes e seriados de TV, eu sou a favor de não saber absolutamente nada a respeito da obra nem do artista antes de apreciá-la pela primeira vez. Isto me dá uma grande oportunidade de apreciar uma obra de arte livre de conceitos prévios mastigados por terceiros e que não necessariamente eu concorde. Eu prezo demais pela minha primeira impressão sobre uma obra de arte, ela é a mais importante para a formação da minha opinião sobre a mensagem do artista.

    Exemplificando: se alguém tivesse me dito que Edward Hopper era o pintor da melancolia, eu não teria notado outras nuances em seus quadros. Se alguém tivesse me dito o background da Abertura 1812 de Tchaikovsky, eu não teria identificado sozinho trechos da Marselhesa nem tampouco o ataque da cavalaria embutidos na música. Se alguém tivesse me dito que 2001, uma Odisséia no Espaço era um filmes sobre alienígenas, talvez eu não percebesse que o monolito é a personificação do desconhecido, e que portanto um religioso possa interpretá-lo como algo divino, e um cético pode interpretá-lo como um artefato alienígena, ou seja, interpretações diferentes de acordo com as crenças de cada um. Se eu soubesse o final de O Sexto Sentido, eu assistiria o filme procurando furos no roteiro ao testar a tese do seu final, ao invés ser levado pela obra e ter uma catarse no final. E assim por diante, os exemplos são inumeráveis.

    Depois que eu formo minha opinião, aí sim eu busco informações sobre a obra, artista, além de opiniões diversas sobre o assunto e sempre acabo apurando minha opinião, mas sempre com a essência da experiência purista livre de informações a priori.

    Resumindo, evitar spoilers pode ser uma cultura rasa quando se trata de entretenimento barato, mas quando falamos de obras de arte, ela é fundamental.

    Sds
    Leonardo Carnelos

  • Flavio Ozorio

    Tem como curtir duas vezes esse texto… Parabens Yassuda, texto brilhante.

  • Rubens da Cunha

    Yassuda, estou contigo. A neurose está tão grande, que logo vai chegar o tempo em que não se poderá falar de nada. Tudo será censurado. O seu ponto de vista serve tambem para pensar uma das maiores tradições da cultura brasileira: os spoilers das novelas nos jornais e nas revistas. :)

  • Elaine Vianna

    Gostei muito da sua abordagem, Yasuuda. Não me importo em saber o fim, e sim, em saborear como a história é conduzida.

  • Kintoki Kora

    Não , tipo acho o fato de saber se meu personagem irá falecer ou não aumenta minha tensão num filme/série de suspense.