WikiHouse: uma casa para imprimir

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Se há algo fascinante na contemporaneidade, é a possibilidade de trabalharmos coletivamente e em rede. As iniciativas colaborativas que já não são mais novidades (no que se diz respeito ao desenvolvimento tecnológico) e à produção de conhecimento agora estão tomando espaço em outras áreas do nosso cotidiano, como no caso do planejamento urbano com participação popular de Almere Oosterwold (divulgado recentemente aqui)

“Baixe casas e componentes que são criados e compartilhados por uma comunidade aberta de designers pelo mundo afora.”

Muitas dessas iniciativas são baseadas no conceito DIY (Do It Yourself ou “Faça Você Mesmo”). A princípio pode parecer um método egoísta, mas a ideia não é agir sozinho e sim se desvencilhar das grandes corporações – as quais nem sempre estão atentas para nossas necessidades e gostos – e criar grupos menores, formados por pessoas com um elevado nível de empatia. Assim, o escritório de arquitetura 00:/ está promovendo a WikiHouse, um projeto open source.

A partir de um plugin que pode ser baixado no próprio site do projeto, o usuário (mesmo leigo) poderá acessar modelos de casas e suas partes editáveis. Uma vez adaptado o desenho as suas necessidades, poderá “imprimir” sua própria casa através de uma CNC. Parece bruxaria? Mas não é, na verdade é algo “simples”. A CNC cortará folhas de madeira em peças de encaixe. E depois é só montar.

“Convide amigos e a família para ajudar com o mutirão. Coloque as seções verticalmente, posicionando-as a intervalos de aproximadamente 550 mm.”

O site do projeto é bastante didático e fornece um “guia de desenho” semelhante a um manifesto arquitetônico. Dentre outros, preconiza princípios de sustentabilidade, esclarece que os modelos estão sob licença Creative Commons e a última recomendação diz: “Como regra geral, desenhe para o clima, a cultura, economia e a estrutura legal e de planejamento do lugar onde você vive e você conhece melhor. Os outros serão capazes de adaptar o desenho para seus ambientes.”

A questão de “adaptar a arquitetura ao meio” me lembrou da “arquitetura vernácula”, aquela criada por não-arquitetos em geral utilizando-se de técnicas tradicionais. A semelhança entre como surgem os padrões do design vernacular e os padrões dos projetos open source foi apontada pelos próprios desenvolvedores: “Open source, pode-se argumentar, é apenas uma aceleração dos exatos mesmos processos”. E chegam a uma conclusão sobre a qual eu venho refletindo, a relativização da função do profissional de arquitetura na sociedade. Não é que o arquiteto deixaria de ser útil, de forma alguma, mas atuaria de modo mais orgânico.

Olho o esqueleto dessa casa e não consigo deixar de pensar na casa de Chico Mendes e suas conterrâneas. Dimensões modestas, infraestrutura em treliça, o piso que não toca o solo, a madeira e a construção coletiva – feita por familiares e amigos. Aqui no Brasil, essa lógica e essa estética persistem sem a interferência de arquitetos formados em universidades. Talvez faça mesmo sentido o pensamento dos desenvolvedores, a maior diferença entre os dois processos está no ritmo.

Por fim, para quem ainda não acredita que a WikiHouse realmente se sustenta em pé, assista o vídeo do projeto logo abaixo:

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4 respostas para “WikiHouse: uma casa para imprimir”

  1. Filipe Oliveira disse:

    Projeto interessante, venho também pesquisando algumas coisas nessa linha de customização em massa e também me peguei refletindo sobre o papel do arquiteto.
    Eu acho que a informatica é uma ferramenta com um imenso potencial democratizador, tornando algumas coisas acessíveis para a população, é fato que alguma hora isso vai chegar na arquitetura, assim como chegou em outras áreas. Vai acabar com a profissão do arquiteto? Não, assim como o powerpoint e o photoshop não acabaram com a profissão dos designers. A ferramenta é democratizada, mas ainda existem aqueles que estudam (formal ou informalmente) e dominam o "savoir faire".

  2. inacio disse:

    Talvez em países como o Brasil, que o arquiteto tem sua profissão diminuída por causa de outros profissionais do "design" que se metem a projetar sem ter o conhecimento técnico sobre a construção. Projetar um espaço não é brincar de "the sims". Há uma complexidade gigantesca de fatores que influenciam as decisões projetuais e que não podem ser largadas a qualquer um. Acho interessante projetos desse tipo que elevam os projetos e "socializam" soluções que "podem" servir a um usuário,ou até mesmo é interessante pensarmos soluções deste tipo para acabar com problemas como a homogeneidade e repetição das habitações de interesse social. Mas as responsabilidades do arquiteto vão muito além da produção de módulos habitacionais, pois basicamente é responsabilidade destes profissionais o ambiente que a maior parte da população do mundo vive, a cidade e moradia.
    Os softwares/sistemas não substituem os profissionais por que eles são apenas ferramentas, se não há um criador capaz por trás não há resultado. O que muda o cenário é que com ferramentas melhores, sobra mais tempo para pensar/criar/questionar, e mais tempo para mais projetos simultâneos.
    A construção civil é uma responsabilidade absurda, pena que ainda não se enxerga isso no panorama brasileiro.

    • Filipe Oliveira disse:

      Sim, Inácio, a personalização da habitação em série é uma das diversas possibilidades advindas da adoção de sistemas generativos na criação dos edifícios, existe um arquiteto português que trabalha muito nessa linha de pesquisa, José Pinto Duarte e seu trabalho "Personalização da Habitação em Série".