Um salto alto perdido na rua

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Dia desses, recomendando livros à amigos, percebi que não lembrava praticamente nenhuma linha inteira de nenhuma obra. O que eu lembrava dos livros eram as pequenas cidades, do frio que fazia no inverno, o pé direito da sala do protagonista e até mesmo a textura das cortinas. Mas não vi nos livros essas coisas. Talvez, essas coisas, as páginas dos livros não tenham nem mesmo me sugerido. Mas essa foi a história que criei pra mim, e pra mim é a história real.

É recorrente: Quando ouço “High and Dry” eu me lembro perfeitamente de voltar pra casa de skate no fim de tarde de um sábado chuvoso, quando eu ainda morava na Califórnia. Acontece que eu nunca andei de skate, muito menos morei na Califórnia.

Não entra ciência nesse tema, que pouco tem a ver com razão. Não vem ao caso explicar por que acontece, mas acontece, e todo designer deveria levar isso em consideração: o universo que a gente inventa é mais real do que o universo em que a gente vive. E é dele que iremos lembrar no futuro.

Já dizia o Professor Martens*:

“Não existe em nenhuma mulher toda a mulher que existe em um salto alto perdido na rua”.


E o Retail Design com isso?

Andar pelo Brasil pesquisando ponto de venda é, em geral, decepcionante, e na maioria das vezes o motivo é o mesmo: parece que ninguém quer convidar o consumidor pra participar. É um monólogo.

Até pouquíssimo tempo atrás éramos um país relativamente pobre, e tudo leva a crer que nosso complexo de inferioridade e raro acesso ao que outros tinham em abundância, tenham feito com que buscássemos ingenuamente uma auto-afirmação de sessão da tarde, de Disney e Beverly Hills. Crescemos achando que um conto de fadas pode (e só pode) ser real se houver um enorme castelo.

Recentemente um amigo europeu, arquiteto, veio nos visitar no Brasil e passeando por um ponto turístico de Florianópolis constatou: “isso tudo parece o cenário faroeste de um parque de diversões”.

É mais ou menos assim: Se for restaurante Mexicano, tem mariachi. Se for moda Brasileira, tem calçada de Copacabana. Se for loja de artigos esportivos, é assustador: tem pista de corrida, quadras e vendedores com apitos (!).

Querer replicar perfeitamente uma realidade externa, seja ela qual for, em um projeto de design, acaba com tudo que o projeto deve ter de mais precioso: a autenticidade. Até porque, no final das contas, se estamos falando de retail design, estamos falando – ou deveríamos – de construção de marca.

Assim como em um livro ou em uma música, a história real de um projeto de design é a história que criamos pra ele. É Gestalt. É Ganzfeld. A nossa mente é viciada em sensações, e se não há nada pra sentir ela mesmo as cria.

Lojas com menos referências óbvias e mais histórias pra contar, por favor.
Porque um enorme castelo não faz do seu ponto de venda um conto de fadas.

“É como se o homem, que permanece ali encantado com aquele salto alto, fosse naquele momento ele mesmo” continuou o Professor Martens. “E tivesse a sua própria biografia. A sua própria memória”

* O Professor Martens é um personagem do livro City (Alessandro Baricco), muito provavelmente meu livro preferido.

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7 respostas para “Um salto alto perdido na rua”

  1. Cara, muito interessante, é a mesma coisa comigo ouvindo algumas músicas de Rock. Em umas me imagino num dia chuvoso e triste na outra como se estivesse no palco do Rock in Rio cantando para cem mil pessoas, é a lembrança que levo de cada música, quando penso nela o meu estado de espírito muda.

  2. Adorei a matéria! Uma das melhores que já li aqui no Brains9, e olha que eu acompanho desde 2008! :-)

    ps: onde encontro esse livro que você comentou no post? Já procurei em sites como Saraiva, Fnac e nenhum deles tem. Obrigado!

  3. MT disse:

    muito interessante o post, mas vim comentar mesmo para elogiar a escolha de melhor livro preferido, também adoro :) já ouviu o álbum do Air (City Reading), musicando a narração de alguns trechos do livro? é de arrepiar.

  4. Gabriela disse:

    Excelente ponto de vista. Também gostaria da indicação do livro. Obrigada!

  5. Felipe disse:

    Cara, muito bom … o post é com disse as vezes quando a campanhas ja esta rolando que vc vai viver ela e ai vc ve que poderia ter feito diferente e ter encantado mais as pessoas!

  6. Guto Sisson disse:

    Muito legal a definição de vida. Nessa linha de pensamento, depressão é que acontece no domingo, depois do jogo.
    Abraço.

  7. Belo artigo! É muito interessante se falar em brand experience, design emocional e todas as sensações que uma marca pode transmitir, principalmete com a força que pode se trabalhar no Retail.
    Quanto ao Brasil já podemos observar muita coisa boa surgindo! Em nosso site retaildesignbr.com na categoria "brazuca", podemos observar excelentes projetos nacionais!! Buscamos sempre inspirar e incentivar a criação de ambientes comerciais em território nacional.