Os Fazedores de Pano da Apple

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A obra de Michelangelo, como é sabido por todos, apresenta um diferencial muito grande em relação aos seus contemporâneos. Basta imaginar que ele, que era escultor, fez o afresco no teto da Cappella Sistina (o graal do Mvsei Vaticani) sem toda a experiência que pintores da época possuíam – e fez o que fez. Gênio.

Muitos anos depois de concluir o teto, Michelangelo voltou para a Sistina. Dessa vez para desenvolver o “Juízo Final”, na parede do altar. Uma obra tão grandiosa e poderosa que deixa qualquer admirador da arte perplexo, assim como o primeiro trabalho. No entanto há um detalhe que nem todos sabem…

A obra sofreu upgrades logo após a morte do artista.

O Concílio de Trento tornou a arte rigorosamente fiscalizada. E quem diria: os personagens do “Juízo Final” estavam nus. Michelangelo, que faleceu pouco depois da conclusão da obra, nada podia fazer. E a batata quente caiu na mão de Daniele da Volterra, discípulo do grande mestre. Que junto com outros artistas (intitulados de “Os Fazedores de Pano”) cobriram a nudez ali retratada. E o caso foi encerrado. É curioso pensar que, ainda assim, grande parte das pessoas que admiram essa obra não conhecem Daniele da Volterra (ou mesmo sua obra).

Digo mais: quanto você se depara com algo tão impressionante como aquilo, saber disso é (quase) irrelevante.

E é aqui que entra a Apple.

Tivemos a sorte de acompanhar de camarote os anos mais produtivos de Steve Jobs – inegavelmente um visionário. E aqui você pode até dizer que “provavelmente ele não fosse o cara que colocava a mão nos códigos e etc”, mas certamente era a mente por trás de cada detalhe, produto e ferramenta que a empresa apresentava (e que dava rumo) ao mercado. Seja iPod, iPhone, iPad ou as outras criações, elas nortearam o dia a dia de muitos consumidores e balizaram até mesmo os concorrentes.

Mas desde que o cara se retirou da empresa (e depois faleceu), muito se falou sobre ‘a decepção’ nos últimos lançamentos da maçã. Todos esperavam um iPhone 5: e veio o 4s (que não agradou tanto assim). O mesmo com o iPad: falavam de Siri e outras novidades, mas isso não aconteceu. O que há com a Apple?

Minha opinião: até aqui ela apenas pintou panos na obra de Steve Jobs.

Outro dia me falaram que antes de sair ele já tinha trabalhado em futuros projetos da empresa. E pense comigo: de um jeito ou outro ainda estamos falando em upgrades na obra que ele produziu. E isso nos leva para o outro lado desse pensamento: será que somente quando a Apple aparecer com “iTable”, “iDog”, iQualquerCoisa”, deixaremos de vê-lo escarrado no portfólio de produtos?

Me lembro de que no vídeo de lançamento do novo MacBook – poucos anos atrás – eram apresentados uma série de pessoas-chave, que acabaram assumindo o palco e as apresentações. Provavelmente uma forma de desvincular a imagem dele a empresa, claro. O que era realmente fundamental, sabendo que o cara estava doente.

Mas pergunto: e o espírito inovador? Será que também foi desvinculado com a saída do fundador? Ou realmente é questão de tempo para voltarmos ao estado de expectativa e admiração por cada uma das novidades? Me digam vocês.

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  • https://www.facebook.com/freibergergarcia Bruno Freiberger Garcia

    Concordo totalmente. Acho que todos estão desconfiados nesse momento, até que se prove o contrário com um produto realmente inovador vai ficar a impressão de que apenas estão pintando panos de Jobs!

  • Leoberto Jr.

    Acho que a morte de Steve Jobs pode dar mais flexibilidade à Apple, principalmente na adaptação a novos mercados muito diferentes dos EUA e Europa, como a China e a Índia, onde a companhia vai ter que lidar com novas legislações, governos, competidores, consumidores, etc. Ele era o grande símbolo da cultura corporativa da Apple e certamente disse alguns "nãos" ao longo do caminho pra manter a identidade da empresa.
    O pagamento de dividendos a acionistas também era algo inimaginável quando Jobs comandava a empresa, mas acabou acontecendo hoje.
    Resta saber se os novos líderes da Apple conseguirão preservar a cultura e a imagem da empresa ao mesmo tempo em que avançam sobre terrenos pouco explorados como a sala de estar, as redes sociais e os países emergentes.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001296872928 Leonardo Sabino

    Acho que sim. Num primeiro momento a Apple ainda lucrará com a sombra de Jobs, lançando um ou outro produto que ainda estava apenas no rascunho deixado por ele, mas acredito que com o passar do tempo, ela fique num patamar de igualdade com uma HP por exemplo.

  • Jhoney Lopes

    Saulo sensacional o seu post.

    Eu vi o título e pensei: "lá vem dejetos não absorvidos no intestino". Eu acredito que a Apple é tanto o Steve jobs, quanto qualquer um que esteja lá dentro, mas este é o ponto. Nós não duvidávamos do Gênio Steve Jobs, a admiração global era tanta por ele que as pessoas ficavam esperando pelo próximo produto único, será que a diferença do o iPhone 2 para o 3 é tão grande quanto a diferença do iPhone 4 para o 4s?
    Atualmente todos estão reclamando dos "upgrades", mas acredito que as pessoas não estão nem aí para as melhorias e eu diria até para os produtos, elas querem um novo gênio. Elas querem algo para admirar.

    Parabéns pela comparação e exemplo usado.

  • Rick Garcia

    Um dos melhores posts do Saulo na minha opinião, concordo plenamente

  • http://twitter.com/srresposta @srresposta

    A Apple anda vai viver um bom tempo com os produtos atuais, principalmente em matéria de hardware, apenas com upgrades de capacidade, processamento, um tapinha aqui e ali no design e layout, mas nada inovador, nenhum novo produto, mesmo pq, hoje, o medo de falhar em um novo produto deve ser enorme.

  • puelocesar

    Então, não é por nada não, mas acho o John Ive e sua inspiração no Dieter Rams muito mais importante para Apple do que o próprio Jobs.

    O papel do Jobs era justamente não ferrar com o trabalho do cara, o que executivos normais com certeza fariam

    • glilco

      Concordo com você. Não que o Jobs não seja importante, mas o trabalho do Ive é muitas vezes esquecido. É possível que muitos dos que idolatram o Jobs e comentarão aqui nem saibam quem é esse cara.

      • CBS

        Eu acho que essa é uma visão que reduz para um lado, da mesma forma que achar que o Jobs é o único responsável reduz para outro.
        O sucesso da Apple, assim como da maioria das coisas, vem de um cenário complexo. Não é só design, não é só software, não é só hardware, não é só desenho de produção. Mas é uma conjectura muito precisa que faz com que eventos históricos possam acontecer. Conjecturas complexas e não gênios. Existem milhões de gênios que foram sucumbidos pela sociedade de sua época. É preciso acima de tudo zeitgeist, entender e ter sorte de captar o espírito de época. Michelângelo incluso nisso, se não fosse um momento de uma igreja violenta e sanguinária, cheia de $ para ser mecenas de determinados artistas para produzir obras que assombrassem os fiéis, talvez o mundo não conheceria os gênios do renascimento. Mesma coisa, nem tão ive e nem tão jobs, mas todos juntos, senão nada aconteceria.

  • rodrigo_encinas

    Cara, a única coisa que tenho pra dizer é: MEUS PARABÉNS pelo POST, muito bacana a relação que fez com a história da arte. Valeu mesmo !

  • http://www.umcafenovaledosilicio.com @prottipo

    Não só a desconfiança e o medo de errar, mas acho que até mesmo a identidade dos produtos. Antes viamos qualquer coisa da Apple com a cara de Jobs e acho que os upgrades nas suas criações estão sendo feitos também para "desvincular" a imagem dele aos produtos. Se a Apple lançar um produto revolucionário hoje, e não der certo nós diríamos: "Se tivesse o dedo do Jobs aí seria diferente… o produto seria assim, maior/menor, mais simples, bonito etc… Acho que estes upgrades são mais para ganhar tempo para criar uma nova identidade e se ajustar à vida sem Jobs no comando, mas sem perder a grande faria de mercado que a Apple possui…

    • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001296872928 Leonardo Sabino

      Concordo… Mas uma coisa é certa, o próximo produto inédito da apple vai ser motivo de muita trolagem. Não importa, o fato de Jobs não estar mais entre nós, será o argumento mor dos flamers. E isso, independente do sucesso do produto

  • paulo

    Pessoas-chave.

  • El Hefe

    Applefags e seus delírios. Querer comparar Steve Jobs à Michelangelo….

    • Saulo Mileti

      Isso. Foi exatamente o que eu fiz. Aliás, acho que deveríamos jogar a Pietà fora e substituir por um iPad. Me poupe, Troll… aprenda a ler e me poupe.

      • Fabrício Cunha

        Ele sabe ler, não sabe é fazer interpretação de texto. #TrollFail

        • https://www.facebook.com/rodrigojacome Rodrigo Jácome

          Eu achando que meu comentário foi o mais genial de todos e vocês dando ideia aos chatos… Eu sou uma anta mesmo.

    • http://twitter.com/Dexilian @Dexilian

      Calma cara, a idéia de utilizar um pouco de história da arte foi apenas pra enriquecer o texto, e não pra comparar uma pessoa a outra. Na verdade a analogia está entre os "fazedores de panos" em dois contextos diferentes, e não entre Caravaggio e Steve Jobs.

  • http://rodrigodemacedo.com Rodrigo

    Saulo, parabéns pelo post, ficou muito bom. Apesar de eu como admirador da Apple, ter ficado frustrado com os recentes lançamentos e com o próximo também, eu acredito que isso é o normal da Apple. Veja, se compararmos o lançamento do iphone 4s com o do 3gs. O design não muda com relação ao seu antecessor, o novo aparelho só recebe melhorias em questão de hardware, que é o mesmo caso dos macbooks e agora do novo iPad. Acredito que esses lançamentos acontecem devido ao produto ainda ter muita lenha pra queimar.

    Quanto ao espírito inovador, isso só saberemos mais pra frente. Quem sabe no lançamento do próximo iPhone…

  • Juliano

    Pra mim não vejo outro diferencial na apple a nao ser o de ser pioneira em tecnologias que até então todos sonhavam mas ninguem colocava esse sonho no papel ao acordar ou colocavam mas não o sonho inteiro.

    Jobs foi o cara que colocou a mão na massa, mesmo que indiretamente, e claro, além de visão tinha uma liderança ímpar pra orquestrar toda essa informação e transformar em produtos consumíveis.

    Qto a continuidade disso tudo? Não vejo diferença nenhuma na estratégia, é como qualquer outro produto, faz sucesso? Vende muito? Está dando lucro? Aumenta a vida útil fazendo facelift como nas montadoras de carros. Agora só resta esperar por outra boa sacada da empresa já que, celular touch, toda marca tem, tablet, qualquer marca tem.
    O que a gente ainda sonha mas ninguem colocou no papel ainda?

  • https://www.facebook.com/rodrigojacome Rodrigo Jácome

    Eu acho que a Apple continua acertando como sempre fez. O que trouxe o sucesso à Apple não é só inovar, mas muito mais criar desejo. O iPhone 4S e o novo iPad foram os maiores sucessos de lançamento da Apple de todos os tempos. Colocar no mercado um iPhone 5 com tanta gente querendo comprar um iPhone 4S seria no mínimo um grande desperdício. Eu tenho certeza que vem coisa grande por aí. Agora, quem se lembra que muita gente ficou decepcionada com o iPhone original (2G, sem apps, sem GPS quando vários competidores já ofereciam)? Lembram?

  • http://www.closet180.com Julie

    Excelente texto, parabéns.
    Bjs