Nossos próprios estrangeirismos
Pensei nesse post artigo depois que vi um anúncio do Renew Ultimate Gold Noite Emulsion. Vou repetir: Renew Ultimate Gold Noite Emulsion. Pois é. A “Noite” estava tão sozinha ali no meio, como se fosse uma última tentativa desesperada de dizer que estamos no Brasil, que tive um calafrio. Tive pena da “Noite”. Acho que em sua honra, é melhor matá-la de vez e entregar seu lugar à “Night”. Ou, já que temos essas mesmas palavras na nossa riquíssima língua, poderíamos tentar negociar algumas pelo menos, como “Ouro” e “Emulsão”. Afinal, temos pele ou “skin”?
Eu não sou contra estrangeirismos. Usamos hoje palavras sem as quais não faríamos as nossas necessidades mais básicas, como toalete ou telefone. Essas duas vieram emprestadas dos franceses. Há invenções, avanços culturais e tecnológicos que trazem novos significados e, com eles, novas palavras. O formalismo de uma língua culta é pra servir de parâmetro. A verdadeira língua é aquela que nos conecta com o nosso cotidiano e é onde há a maior e a mais rápida evolução. Tuitamos (ou tweetamos) porque não teríamos como fazer de outra forma. Os termos nascem da própria rede.
Isso não significa que a empresa deveria mudar o nome do produto. Na verdade, o que se fez nos últimos 20 ou 30 anos no Brasil foi transformar o nosso mercado de consumo em um mercado passivo ao estrangeirismo, principalmente ao anglicismo. No (hoje certeiro) argumento construído de que o que vem de fora é melhor. Não somos entendedores do inglês, somos simplesmente passivos. Acredito que os iPads e Sourrounds não precisem mudar seus nomes. Pelo menos não à essa altura. Mas a “Noite”, esmagada ali, me revela uma coisa. Que uma parte importante do produto foi feita ou modificada aqui.
Afinal, temos pele ou “skin”?
Há alguns anos eu tinha uma opinião um pouco diferente. Achava uma invasão. Minha opinião mudou razoavelmente. Mas continuo pensando que, na responsabilidade que os comunicadores e os profissionais do mercado de consumo têm, estão os deveres de uma mensagem clara e verdadeira. Não temos palavras que substituam o “tuíte” ou o Twitter, que é uma marca. Mas temos palavras equivalentes a “social network”. E usamos, porque em algum momento alguém resolveu traduzir.
Esse sintoma nos revela um detalhe sobre nossa cultura. Historicamente temos um comportamento de colônia, que em muitos aspectos ainda não mudou. Assim, adotamos os achados dos países mais inovadores, como os EUA, e os aplicamos por aqui – na maioria das vezes sem questionar. Adotamos as inovações nos termos como nos são apresentadas: marketing, SEO, CFO, crowdsourcing etc. Mudamos as placas nas portas do escritório, trocamos o adesivo na vitrine. Acatamos reformulações e alinhamentos internacionais que custam menos. Isso não acontece somente aqui, e não tem nada de errado. Faz parte do mercado e da padronização de termos e produtos globalizados. Na minha opinião, errado é sermos apenas espectadores.
Outro dia ouvi o termo “multidões” em um contexto de inovação e me soou estranho. Simplesmente porque é uma palavra em português em um contexto totalmente dominado pelo inglês. É assim e não vai mudar tão cedo, talvez nem mude. Mas temos que pensar que a língua evolui conosco e evoluímos com a nossa língua. Estamos em um ponto em que nomes de filmes, de sites e de empresas em português ficam estranhos. Isso não é o mais estranho?
Na minha opinião, errado é sermos apenas espectadores.
A linguagem une as ideias, e, por isso mesmo não pode ser engessada. Quando penso em um equivalente para um termo novo, eu paro pra pensar em qual seu significado na minha língua, na minha cultura e no meu país. Ser espectador não condiz com o papel que o Brasil quer para o futuro.
Eu acharia muito bom se as nossas inovações e nossas criações, aquelas que estão surgindo com nossos empreendedores e inovadores, nossos novos produtos, nossos novos sites, se eles priorizassem termos e nomes na nossa língua. Assim, poderemos também deixar a nossa marca na cultura dos outros países. Uma brincadeira, pra começar: qual seria um bom termo para chamar uma nova empresa inovadora brasileira que não seja “startup”? Alguma sugestão?










A única sugestão é escrever 'espectadores'.
Tem razão! Corrigido. Obrigado.
Quando começarmos a criar conhecimento aqui dentro do Brasil os novos termos poderão ser cunhados em português. Porém, no momento, o conhecimento vêm de fora e os termos são criados pela fonte emissora. É triste, mas o que realmente deve ser discutido é o porque de não termos uma produção intelectual alta aqui no país.
Concordo plenamente. Ia colocar algo a respeito, mas o texto já tava ficando grande!
As coisas já avançaram muito. Mas ainda falta MUITO. Meu maior medo agora é que todo mundo confunde inovação com inovação tecnológica.
Comece em cima (em inglês nórdico)
Precursora!
Empresa iniciante. Não é "cool" como "start-up", mas é preciso.
"inovadora"
é um bom começo
Sugiro empresa avante.
Empresa Visionária que em seu Impetou de Inovação com um olhar a frente de seu tempo desenvolveu algo que logo será copiado por alguém, por alguma empresa ou por um chines
"Pioneira!"
"Desbravadora!"
Gostei muito, parabéns.
Parabéns Rodrigo, adoro esse assunto. Um novo texto que nos mantém alerta para resolver um problema que não podemos ir passando de geração a geração.
É nossa a responsabilidade de gritar e pensarmos um pouco antes, e nomear novos produtos com palavras em nossa lingua.
Quanto a palavra ela já existe. Vou apenas copiar colar o que diz o dicionário.
PRIMAIS
2ª pessoa do plural do Presente do Indicativo do verbo primar: vós primais
Significado de Primais
Ser o primeiro; ter a primazia.
Esmerar-se; distinguir-se.
Quem tal tambem usarmos: C-el (Correio Eletrônico) kkkkk
Nós que fazemos a comunicação em massa temos uma grande responsabilidade.
a palavra é iniciante
Sim, por coincidência ouvi também o termo "nascente" em uma notade de imprensa. Como eu falei, acaba soando estranho.
Empresa projeto, já que a outra melhor opção já é utilizada, Incubadora. Ótimo post, realmente é complicado isso, vivo isso todos os dias na minha função – programador de jogos. Tem muita coisa que se formos traduzir, quebra demais. Shader, midpoint algorithm, fade, etc. E assim, acaba se acostumando.
Abs.
sigam por aí e pensem numa outra expressão pra "Brainstorm" q tbm seja "cool" o bastante.
alguém se atreve?
Adoro a tradução literal-engraçada: Toró de parpite!
Por outro lado, os restaurantes (nem todos de comida típica brasileira) se mostram bem mais adiantados explorando bem essa ideia de nacionalismo. Temos muitos Botecos, Armazéns, Biroscas, Engenhos e afins… Cheios de charme! A proposta é excelente! Vou adotar.
Concordo bastante com seu texto. O Brasil está crescendo, ganhando fama mundial e nem se quer se dão ao trabalho de traduzir um comercial? Outro dia vi um comercial do tal carro de três portas, que não-lembro-qual empresa lançou. Sabe quando uma pessoa fica abismada com algo? Eu fiquei assim. O comercial do início ao fim, estava todo em inglês! E não é dizer que foram apalavras como "air-bags", foram palavras como "porta"… Me revolta, sério. =~ Mas não serei extremista, tem alguns títulos de filmes que, em PT-BR, além de mal traduzidos (ou adaptados), são feios, afinal, entre "Se beber não case" e "A ressaca" tem uma diferença escrota.
Belo texto e bela reflexão.
Não lembro em qual blog, mas vi uma frase que dizia:
"Aquele momento estranho que você sabe como se expressar sobre algo em inglês mas não na sua língua pátria."
É a eterna briga daquele professor mais ferrenho no congresso de comunicação que reclama com o palestrante mais novo que ele por causa do uso em demasia de termos estrangeiros.
Mais uma vez, belo texto.
Embora muito feio, um termo utilizado nacionalmente é Empresas de Base Tecnológicas, as EBT's. Acho que é o que melhor transmite o conceito de start-up, mas peca no dinamismo da palavra – que tem tudo a ver com o negócio das mesmas.
Muito Bom o post, ops, artigo… Eu realmente não vejo nada contra "pegar emprestadas" algumas palavras, acho que as pessoas dizerem que a nossa língua está morrendo, é realmente um absurdo, pois nossas raízes são diversas e o "português" sempre foi uma língua mista, igual ao povo que a utiliza… Contudo, esmagar a "Noite" entre termos estrangeiros foi mesmo assustador
Foi estranho quando traduziram o Twitter para português, mas a gente se acostuma. Assim como já estamos acostumados com a expressão "curtir" no lugar de "like". Concordo com o que falaram sobre o poder intelectual do nosso país, num breve futuro talvez possamos expor nossa língua aos estrageiros com mais intensidade. Sobre a startup, acho que "empresa inovadora" é uma boa.