Escola de Cinema: O Drama da Comédia
Clichês podem não ser a melhor das ideias para defender um ponto, mas, às vezes, são ótimos pontos de partida, então aí vai um deles: para entender melhor a realidade (ou atualidade, no caso desse texto), basta olhar para o lado e prestar atenção. Óbvio? Sim, sem dúvida. Entretanto, é nessa obviedade que constatei mais um fator da inevitável consolidação da geração YouTube. Não é nenhuma descoberta maravilhosa, mas ver os reflexos disso de forma tão marcante merece certa atenção, pois, de uma forma ou de outra, todos seremos influenciados. E o principal conceito dessa brincadeira é: precisamos de comédia em tudo?
O quão benéfica é essa enxurrada cômica? Existe mesmo tanto talento para o gênero ou é uma necessidade de mercado?
Escrever os artigos da “Escola de Cinema” se provou mais desafiador do que imaginei por um simples motivo: queria transmitir informações mais fechadas, mas estou no meio de um processo e, como a gente aprende na faculdade de jornalismo, é bobo e feio reportar algo sem ter todas as informações. Por sorte, esse problema se resolveu sozinho por conta da boa e velha prática de prestar atenção no que é dito ao redor. Basicamente, estava dando um duro danado na aula de roteiro quando uma certa mensagem era martelada constantemente – de forma instintiva e vinda de diversos backgrounds – toda vez que alguém apresentava um novo roteiro à turma.
A ficha caiu quando um aluno da Rússia e um do Japão apresentaram roteiros inegavelmente dramáticos, pesados e intensos. Eis que vários alunos comentam sugerindo coisas como “se você quiser deixar mais engraçado, faça isso; se o personagem ficar aquilo, vai ficar engraçado; talvez, se retirar o elemento X, fique mais cômico”. Depois de passado o ódio inicial pelas ideias tresloucadas, caiu a ficha. De onde vem tudo isso?
Chamei de geração YouTube por comodidade, mas essa tendência engraçadinha tem sido linha condutora forte em boa parte dos formatos de comunicação gerados pela internet. Começando pelos mini-filmes – caseiros ou não – cujo objetivo é garantir aquela risada instantânea e, claro, disparar nos hits; depois passa pelos curta-metragens, inegavelmente enveredados para o lado humorísticos para servir como plataforma mais efetiva do que, digamos, uma ficção científica ou um drama. É só para para pensar, dos filmes compartilhados pela sua timeline no Facebook ou no Twitter, recentemente, quantos eram engraçados e quantos eram sérios?
Outra vítima dessa influência é o ainda incipiente, mas valioso, podcast. Só os engraçados sobrevivem. Informação foi a base para a força dos programas no princípio, mas, de fato, quem faz dinheiro, atrai multidões e se estabeleceu com o formato – fora dos programas musicais – precisou incorporar o humor ao programa. Alguns beiram um stand up comedy improvisado. Tem gente que cria personagem engraçado, gente que lê piada semanal e etc, com o intuito de manter o ouvinte interessado, entretido e disposto a baixar o próximo episódio. Esse cenário vai além da necessidade de aceitação, tem mais a ver com o medo do fracasso e da rejeição, especialmente se considerarmos os poucos casos de sucesso financeiro do formato.
Junte tudo isso e inclua a perspectiva de cerca de 25 anos universitários, cujas escolhas para os próprios roteiros flertam com a comédia em pelo menos 85%, e cujas esperanças – como público – nos filmes dos colegas sempre pedem mais humor. Mesmo quando não há espaço para o gênero. Fica a impressão de que, de certa forma, deixamos a responsabilidade da transmissão das ideias mais densas para os longas-metragens e para os filmes indies (que, atualmente, estão batendo forte em temas como depressão, suicídio e conflitos internos), e passamos a encarar a produção online como algo mais leve, assumindo de vez a natureza curtinha e passageira.
Se essa é a vocação da produção online, que seja explorada devidamente
Nada de errado, aliás. Se essa é a vocação da produção online, que seja explorada devidamente. Desde que comecei a estudar cinema, passei a prestar atenção na produção de filmes estudantis e há muita coisa boa por ali, especialmente no Vimeo.com – é só pesquisar por student film, que vai chover coisa boa – e a mescla parece ser boa, mas, mesmo em dramas comportamentais, a presença da comédia é inegável. Isso lembra filmes de terror com aqueles sustos gratuitos, sem força dramática, mas utilizados para manter o espectador ligado na história. Tudo paliativo.
No fim das contas, esse pensamento todo levanta mais perguntas do que respostas. Justamente por considerar a comédia um dos gêneros mais complicados de se escrever, vejo esse exagero como algo perigoso e desnecessário. O quão benéfica é essa enxurrada cômica? Existe mesmo tanto talento para o gênero ou é uma necessidade de mercado? Ou pior, uma demanda superficial gerada pelo que os atuais criadores de conteúdo consideram comercial? Superexposição é sempre um problema para novas tecnologias ou formatos, basta olhar para o recente surto de filmes em 3D e sua rápida retraída. O 3D, porém, foi limitado às grandes produções por conta de seu alto custo, o que não é o caso da comédia, capaz de ser incorporada a qualquer filme ou formato.
O maior problema é estarmos diante de uma nova geração condicionada a buscar a diversão constante e pelas razões erradas. Uma das coisas que aprendemos ao escrever roteiros é que a piada – quando encerrada antes do tempo ou prolongada em demasia – perde a razão de ser. É algo similar ao desespero dos diretores em repetir o “Efeito Hitchcock” e incluir o mesmo truque de câmeras diversas vezes num mesmo filme. É necessário contexto e razão para um resultado marcante quando se fala em risadas inesquecíveis. Será que estamos mais perto desse cenário ou do puro exagero?
Interessante o argumento, especialmente quando você comenta dos dramas apresentados pelos estudantes Japoneses e Russos.
Sei que a literatura Russa é rica em dramas em sua literatura classica, mas conheço um pouco mais sobre a cultura Japonesa, uma boa parte do desenvolvimento literário dos Japoneses vem de Mangas, que são ricos em discutir dramas emocionais e sociais de forma madura, mesmo entre temas absurdos e estapafurdios, e, mesmo com a Amercanização da mídia mundial, esse peso dramático se mantém em diversas mídias no Japão, como manga, anime, seriados, filmes e livros.
Se formos analisar a mídia americana voltada para jovens, existe sempre uma necessidade de um "comic relief" que as vezes é inoportuno ou ilógico para a narrativa, mas serve para um momento de descanso para o espectador.
Não acho que vá seja duradoura essa "avalanche cômica" que vemos hoje, é o que vende agora, mas pode ser que amanhã venda menos, depois de amanhã ainda menos, até encontrem algo que se encaixe no vazio deixado e uma nova vertente surja.
É triste para quem realmente se interessa pela comédia ver essa banalização, até porque para a maioria qualquer coisa que seja "engraçada" é comédia, daí mistura o trigo com o joio, humor de qualidade passa a ser incluído no mesmo saco que tosquices a la Pânico na tv e passa a existir até um certo preconceito para com a comédia, que passa a ser enxergada de maneira errônea e generalista como puro besteirol, perdendo assim sua essência.
Prefiro que a comédia mantenha certa distância do mainstream, pois é nele que pessoas que se interessam mais pelo lucro do que pelo conteúdo costumam se situar, e como quem faz algo por dinheiro quase sempre produz lixo, prefiro que o humor fique para quem faz pura e simplesmente pelo gosto, mesmo não sendo lucrativo (mas quem falou que deveria ser?)
Ter um momento cômico é bom, mas quando o filme tenta se sustentar nesses momentos, aí fica ,muito forçado, fica um "humor sem graça".
Atualmente desisti de ver esses filmes "besteirol" derivados de "Todo mundo em pânico" por não ter mais paciência. Quando apenas o humor não é o bastante apelam logo para a baixaria…
Existem tantos filmes de humor que são ótimos e não tem apelação, assim como tem tantos filmes de drama também ótimos e não aparece nenhum momento cômico, e mesmo se tiver é algo que se encaixa tão bem que nem percebemos que está saindo da essência drama.
Sobre podcasts, hoje em dia virou mania mesmo ter sempre um comediante, ter sempre uma piadinha pronta. Não que eu seja contra momentos de humor em um podcast, mas sabendo dosar bem. Pois sempre em uma conversa entre amigos vai sair alguma piada, algum caso engraçado que aconteceu, mas se isso se torna uma constante durante todo o assunto do programa, a piada fica sem graça. É como foi citado, tem que saber o momento certo.
Hoje a comédia está sendo a válvula de escape para muitos iniciantes no mundo dos podcasts, assim como, creio eu, também do cinema. Da minha lista de mais de 100 podcasts que eu ouvia hoje não tem nem a metade. Fui cortando muitos e deixando só os essenciais.
Não precisamos ter medo de tratar assuntos séries com seriedade. Assim como fazer do humor algo sem apelação. Para não virar mais um besteirol…
Achei o artigo um tanto exagerado. Tentou "intelectualizar" um assunto muito simples. O humor não fica banalizado por seu uso em "excesso". Não existe isso. O que existe é algo bem feito, e algo mal feito. Nunca haverá limites de espaço ou de tempo para algo que seja bem feito.
O uso do humor em maior escala do que o drama ou a ficção científica (para citar as duas alternativas menionadoas pelo autor do post) a conteúdos diversos se deve a uma questão muito simples:
1) Ficção científica requer muito conhecimento técnico para ser feito
2) Um arco dramático não se constrói em 3 frases, uma piada sim.
O humor é mais rápido e mais fácil do que qualquer alternativa. É uma forma de dizer a mesma coisa, só que de maniera inteligente. Que mal há nisso? Se não é engraçado não é humor, é tentativa de fazer humor. Bem diferente. O sucesso desse tipo de fórmula atesta apenas o que eu já disse: se é bem feito fica, se não, vai embora. Lei do capitalismo.
E quanto as críticas feitas aos dramas apresentados pelo japonês e pelo russo: talvez o roteiro deles tenha apenas ficado chato, ou ruim. Tão pesado que cansou a quem avaliou o roteiro. Só isso.
Daniel, não foi bem isso o que o Barreto falou. Ele comentou sobre a falta de textos (roteiros) com altas cargas dramáticas e profundidade nos personagens, vendo como agente causador o universo do YouTube em que o humor é o que garante o nº de viewers, que fez com que a geração atual de consumidores de cultura pouco se importe com temas mais densos e complexos.
Concordo em boa parte com o que ele falou: faço parte desta nova geração (tenho 17 anos), mas vi filmes mais cults e com temática mais dramática. E ao contrário de filmes de explosão de Hollywood que proporcionam ao expectador orgasmos visuais, os filmes cult nos proporcionam orgasmos intelectuais e é esse o meu gosto. Porém este último citado é muito difícil de se elaborar, precisa-se de tato e sensibilidade para construir esse ápice de contentamento, coisa que a indústria cinematográfica não apoia, pois além de precisar que os roteiristas quebrem a cabeça, isso deixa o processo muito demorado, coisa que os estúdios não perdoam.
Para finalizar: não sou contra o humor no cinema, muito pelo contrário – adoro o humor negro do Tarantino e dos Irmãos Coen – , mas tudo tem o seu momento. No caso dos estudantes do Barreto, o japa e o russo, o humor poderia contrastar com a mensagem da história. E veja: antes de entreterimento, cinema é arte, deve nos dar uma moral no final da história, nos dar outras visões do mundo, diferente da habitual e, mais importante, nos fazer refletir.
Não é verdade Maurício, pessoas gostam de temas complexos e densos. Só não gostam de nada malfeito, como já disse. Recomendo assistir ao filme ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro "Por um mundo melhor". É um drama, é complexo, e recebeu a premiação máxima de Hollywood (que segundo você não valoriza produções desse tipo, o que fica provado que é uma inverdade).
Segundo: Dramas não são mais demorados para se produzir. Um filme de ação blockbuster como Transformers ou Avatar são bem mais demorados (este último levou 5 anos para ser feito). Estúdios não se importam com o tempo de produção, mas com o possível retorno financeiro do filme. Ponto. Se o filme der retorno, levará o tempo necessário para ser produzido. Logo, tempo de filmagem (e não de filme) não é motivo que impeça alguém de produzir o que quer que seja (drama, comédia ou outro formato).
Realmente, um drama, como eu já afirmei e você reiterou, é mais complexo do ponto de vista do espectador. Não se faz através de sequências rápidas de piadas curtas, mas de um continuum crescente que leva ao "orgasmo intelectual" mencionado por você. Razão pela qual aparece mais em longas. Um drama de cinco minutos dificilmente é bom (para não dizer nunca). Uma comédia no mesmo tempo pode ser ótima.
Finalmente cinema é arte, e sua função é emocionar, primordialmente. Assim como a música, o teatro, e as demais. Você é novo e se um dia tiver oportunidade de se aprofundar no tema verá que cinema com "lição de moral" pertence justamente ao tipo de filme do qual você diz não gostar: Linear e previsível. Filmes realmente bons não tem um final óbvio e uma lição clara. São abrangentes o suficiente pra permitir que cada espectador leve consigo suas próprias conclusões. Quando um filme oferece apenas um ponto de vista, isso é um mal sinal, e não o contrário. Recomendo que assista "Beleza Americana" outro excelente filme, drama, feito por Hollywood, e sem um final fechado. Sim, cinema é feito para refletir, mas só consegue isso, se primeiro, envolver o expectador. E para envolver é preciso, de alguma forma, entreter.
Por amostragem, descobri que os perfis que possuem maior número de seguidores no Facebook, por exemplo, são de pessoas que abusam da criatividade para postar piadas e curiosidades ligadas ao humor. Essa tendência não é contemporânea, pelo menos no Brasil. A TV Tupi alcançou grande número de telespectadores com programas de humor.
Acho que boa parte dessa tara por comédia se dá ao fato de a alegria, agregando a felicidade e a risada, ser uma das emoções mais facilmente reconhecidas. É muito mais fácil fingir uma risada que fingir um choro. E com a risada forçada pela evidência do vídeo e seus influentes, é tirada a conclusão de que o cômico foi o ápice do objeto…
Talvez aí no exterior as coisas sejam diferentes, porque em matéria de cinema eu raríssimas vezes encontrei gente preocupada em escrever comédia.
Num curso de roteiro que fiz há uns meses, inclusive, eu fui o único entre 10 participantes que escolheu o gênero. Todos os outros falaram de dramas existenciais, relações complicadas entre familiares, doenças e etc. Fui o último a apresentar minha ideia e pra mim foi claro o choque no resto do pessoal, uma postura meio "por que alguém que almeja escrever um roteiro escolhe um gênero menor como a comédia"?
Começo a achar que isso é algo relacionado ao tamanho do mercado onde você está inserido. Aqui em Blumenau, onde eu moro, um mercado minúsculo, o pouco que é feito passa longe da comédia. Nos grandes centros aparentemente já tem gente séria demais e há liberdade pra investir em gêneros diferentes. No caso, a comédia.
Tudo depende do público que se quer atingir. O humor (a pornografia também) são caminhos mais curtos para atingir públicos maiores a curto prazo, mas não necessariamente a longo prazo. Quantos programas humorísticos tiveram vida longa? Quem não se recicla cai no marasmo dos clichês e das piadas prontas e tende a cair no esquecimento.
Quem segue um caminho em que acredita, seja no drama, na ficção científica, ou outro, se fizer um bom trabalho, terá de trabalhar mais duro, mas conquistará um público fiel a mais longo prazo.
Sds
Leonardo Carnelos http://www.artperceptions.com