Macacadas Hollywoodianas: Reboots e derrapadas

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Clássico é um negócio complicado. Alguns são importantes pela qualidade, outros pela coragem, alguns pelas duas coisas, mas, discussões sobre relevância à parte, eles existem e precisam ser respeitados. Certo? Idealmente, sim. Na prática, não. Especialmente quando falamos em cinema.

Quando o termo “homenagem” foi institucionalizado para acobertar as agressões hollywoodianas a grandes filmes do passado, a festa do caqui começou com a temida onda de remakes – que de onda não tem mais nada, afinal, já dura, pelo menos, 15 anos – e as seqüências e prequels. Vale tudo para explorar franquias de sucesso e cujo nome, em tese, garantiria boas bilheterias. É Hollywood se mostrando covarde ao extremo e, literalmente, quem paga pelas macacadas deles somos nós.

No caso mais recente, “Planeta dos Macacos: A Origem” retoma o clássico de Pierre Boulle depois da repelida adaptação de Tim Burton, entre na onda as “reimaginações” e levanta mais perguntas do que, de fato, responde. As duas principais envolvem um tema fundamental para o Brainstorm9: criatividade!

Se há perguntas, vamos a elas: até que ponto uma franquia resiste a tantos reboots; e o que vale mais, sucesso comercial ou integridade intelectual? Pelo conceito dos filmes clássicos, o levante dos símios como raça dominante foi possível pelo nascimento de César, o grande líder e modelo para incontáveis gerações de primatas sapientes. Porém, ele só nasceu graças à viagem no tempo empreendida por seus pais, Cornelius e Zira, e pode liderar sua raça num mundo humano acometido por pestes envolvendo animais domésticos e outras raças. Ou seja, uma montagem complexa e desenvolvida ao longo de muitos anos, num processo de constante, e inevitável, crescimento.

Aproveitar a fama de uma franquia histórica, distorcer seus conceitos e ceifa-la de sua originalidade justifica o sucesso comercial?

“Planeta dos Macacos: A Origem” ignora tudo isso, o contar uma história até mais paralela que a tentada por Tim Burton. Para tal, curiosamente, precisou de algumas ideias de outro filme com “macaco” no nome, afinal, ao pegar emprestado uma série de conceitos de “Os 12 Macacos”, de Terry Gilliam, o diretor Rupert Wyatt altera a essência da franquia e torna impossível a linha narrativa estabelecida pelos filmes de Charlton Heston.

Tudo isso por cansaço do estúdio com os conceitos relativamente datados da década de 70 ou alguma tendência maluca na Fox de achar que o público não se envolveria em algo mais social do que tecnológico? Impossível saber a resposta, entretanto o resultado do filme dá uma dica fundamental: só funciona por conta da tecnologia. Só funciona por causa da captura de performance. Só funciona por causa de Andy Serkis. Ele interpreta César, ele é a alma do filme, deixando James Franco de lado com facilidade absurda e nível de realismo impressionante.

A transformação de Andy Serkis no macaco César

Um dos elementos de mais orgulho para a equipe original de “Planeta dos Macacos” foi a criação das máscaras sintéticas para os atores, capazes de transmitir suas expressões através do látex. Trabalho hercúleo e bastante efetivo, permitindo maior conexão entre personagem e público. Tim Burton seguiu a mesma linha e transformou Tim Roth, Helena Bohan-Carter e Michael Clarke Duncan em símios aceitáveis, mas sofreu por ter aberto mão do elemento social e optado pela complicada rota dos mundos alternativos e da viagem no tempo. Exceto pela persona de César e sua jornada messiânica, “Planeta dos Macacos: A Origem” abandona os demais elementos e, inevitavelmente, é fruto de seu tempo, ao permitir que a tecnologia seja sua maior conquista.

Nessa história sobre pais e filhos, confiança e limites, e, acima de tudo, amadurecimento, a inversão de valores acontece rapidamente, afinal, é inevitável não torcer por César mesmo sabendo que, no fim das contas, ele vai causar a ruína da Humanidade. Pensando bem, não, pois quem leva a culpa somos nós em mais um ataque aos males da genética e da ganância corporativa. Aliás, esses elementos em si são bastante datados e já foram usados ao extremo. Bem, é aí que devemos pensar na primeira pergunta. Se tanta coisa mudou, por que buscar ligação com os filmes anteriores se eles serão, efetivamente, substituídos?

De fato, “Planeta dos Macacos: A Origem” poderia, ainda que de forma inconsciente, ser uma tentativa de se encaixar na nova tendência hollywoodiana de se fazer filmes dentro de um mesmo universo, mas sem tocar nos originais, assim como Ridley Scott vai fazer com “Prometheus” (no universo de “Alien”) e o novo “Blade Runner” (uma prequel do original concebido a partir de uma fala do Replicante de Hutger Hauer). Mas seu roteiro revisionista impede qualquer conexão e propõe um novo “Planeta dos Macacos”, em sua terceira encarnação.

E talvez isso não seja o suficiente, afinal, há perigos muito maiores apresentados pelo cinema do que uma eventual queda da Humanidade perante o levante símio. Nossa realidade foi questionada, nossos sonhos foram invadidos, nossos desejos manipulados e nosso futuro já foi assolado por zumbis, vampiros, alienígenas e catástrofes climáticas. Perante esse cenário, uma sociedade dominada por macacos fruto do medo nuclear não parece tão assustadora e, essencialmente, não é nada inovadora.

O filme em si é bem trabalhado em seus dois primeiros atos, constrói uma boa relação entre o núcleo familiar composto pelo novamente apático James Franco, John Lithgow subaproveitado, mas efetivo, e Andy Serkis, um cometa qualitativo na frente e atrás das câmeras (ele é diretor de segunda unidade em “O Hobbit”). E se perde totalmente no desfecho, ao acelerar a trama de forma desnecessária, enchendo a história de furos e clichês que havia evitado até então.

O que nos leva à segunda questão. Aproveitar a fama de uma franquia histórica, distorcer seus conceitos e ceifa-la de sua originalidade justifica o sucesso comercial? Numa Hollywood cada vez mais acovardada e desesperada por títulos certeiros em se tratando de grandes filmes, essa tem se mostrado a regra entre as aquisições e também responde pelo maior desserviço da última década do cinema, que pouco agregou à cultura e à discussão social. Se os filmes originais já destoavam da obra de Pierre Boulle por conta de impossibilidades tecnológicas da época, a descaracterização se faz completa agora e a integridade intelectual entra pelo cano ao ponto de se ponderar se o “inspirado na obra de…” deveria permanecer ali.

De certa forma, “Planeta dos Macacos: A Origem” é fruto de nossos tempos, de nossas dúvidas, nossos medos e da latente incompetência na maioria dos reboots recentes, especialmente os da Fox – que acertou em cheio com “X-Men: Primeira Classe”, mas errou grosseiramente com “Wolverine”. E, acima de tudo, a comprovação da crise criativa, capaz de transformar a grande vantagem de se poder conceitos pré-definidos e consagrados numa pedra no sapato de roteiristas incapazes de reinventar ou simplesmente atualizar sem recorrer ao clichê óbvio ou a conceitos alienígenas ao universo em questão.

Como diria Taylor:

“Damn you, damn you all to hell!”

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16 respostas para “Macacadas Hollywoodianas: Reboots e derrapadas”

  1. Muito boa a reflexão!

  2. Club Car disse:

    A indústria do cinema demorou, mas aplicou os modelos de eficiência já há muito tempo no mercado, mas que tem dificuldade de entrar no mundo artístico.
    Mas em Hollywood não, conseguiram entrar com esse conceito de investimento e eficiência.
    Os investidores vão se interessar em filmes que tem um risco menor para botar seu dinheiro, então acabam indo pra refilmagens, que não precisam de tanto dinheiro em marketing pra divulgação, e a marca já é estabelecida no mercado, ou seja, para os espectadores.

  3. Juliana disse:

    Ah, agora fiquei desanimada de ver o filme!

    Acho que tem certos tipos de filmes que, francamente, parecem que foram feitos obrigando algum tipo de sequência, prequel ou sei lá mais o quê (tipo Thor e Capitão América que surgiram basicamente por causa do The Avengers, na minha opinião). Mas, na maioria das vezes, é como você diz: algumas franquias acabam comprometendo boas obras cinematográficas.

    Sei lá, fazer muito dinheiro é bem tentador, né? E pensar que vale de tudo, de cenas completamente desnecessárias até franquias completamente desnecessárias. E, sério mesmo, tem hora que Hollywood tem é preguiça.

    • Luciano disse:

      Não desanime,Juliana…É um filmaço uma releitura outra história mas bem contada e bem dirigida,vale muito a pena.
      Mas concordo em parte e respeito o que vc e o Bruno escreveram…Abraços…

      • designfmu2s2010 disse:

        apoio você luciano!!! estamos em outro seculo, somos outro publico. quem realmente gosta de cinema, assiste aos filmes e tira suas proprias conclusoes. cada um tem que ter o seu proprio ponto de vista. assisti todos os filmes relacionados a planeta dos macacos e quase todos os filmes baseados em quadrinhos. ninguem pode simplesmente querer que um seja o roteiro do outro, mas ter as duas visoes de seus criadores eh a melhor forma de decidir se aquilo te agrada ou nao.
        assistam. eh um bom filme.

  4. Michel Alves disse:

    Eu quero ver esse filme, mas já estou quase certo que não vou gostar tanto…

    Sou estudante de física e sempre me apaixonei pelos paradoxos temporais criados por certos filmes. Para mim os cinco filmes clássicos de Planeta dos Macacos estão em uma redoma de ouro e dificilmente sairão de lá.

    Mas uma coisa digo, apesar de terem excluído o paradoxo dessa estória, acredito que ficará melhor que a do Tim Burton…

  5. Valeu pelos comentários, pessoal.

    Só para reforçar um conceito: não disse que o filme é ruim. Aliás, assistam! Vale a pena. A análise foi em relação aos originais e os efeitos criativos gerados por esse reboot.

    abraços,
    Fábio

    • Luiz Alcântara disse:

      Concordo com o excesso de reboots – porém vc foi muito infeliz na expressão "Originais" – só existiu um filme um filme Original – o primeiro – os demais foram "caça níqueis" explícitos, com roteiros fracos e absurdos mesmo para a época (bomba atomica explodindo dentro do metro de NY, destruindo o planeta e criando algo tipo um "buraco negro" que envia 3 macacos para o passado). A verdade é que muito "clássico" na verdade de clássico só tem a fama.

  6. Luiz Alcântara disse:

    Assisti ao filme e posso afirmar que superou minha expectativas, como havia assistido apenas o verdadeiro clássico de 1968 até mês passado (não costumo a perder tempo com filmes do Tim Burton), acabei por baixar os demais filmes (1970,71,72 e 73) e fiz uma 'maratona' básica, a decepção foi algo semelhante a matrix reload. Realmente não entendo este "ufanismo" que cerca estes quatro filmes (sei que muitos irão me xingar, mas não considero RC um grande cantor, só pq meu pai achava ele o máximo), hollywood é business de entreterimento, sempre foi e sempre será, as quatro sequências de Planetas dos Macacos, aproveitaram o sucesso de seu precursor única e exclusivamente visando lucro fácil – o roteiro destes filmes são ruins e absurdos (seguindo a teoria da relatividade, a probabilidade de Brent ter pousado a nave (na verdade ele caiu) no mesmo período que Taylor é proxima de zero, uma vez que poucos segundos seriam iguais a décadas). Bem já estou me estendendo demais e vou ficando por aqui – só para comprar briga de vez – os reboots de Star Trek e 007 são muito melhores que seu originais!!!!!!!!!!!! abs a todos.

  7. @willtage disse:

    Excelente matéria e analise. Eu sou fã dessa franquia e mais uma vez me decepcionei com esse novo Reboot. Caso não tivesse o título nem ousasse pegar o nome da franquia original, poderíamos está fazendo outro comentário. Mais um filme descartado da saga clássica do Planeta dos Macacos. O primeiro e o terceiros são verdadeiras obras primas. Abs!

  8. Felipe Autran disse:

    Interessante, mas não entendi porque reclamar do Planeta dos Macacos e elogiar o X-Men: Primeira Classe que também joga os outros três filmes fora em vários momentos. Não posso falar do comprometimento com a franquia pois só vi o original e esse prequel, mas é um excelente filme e não fica querendo deixar mais ganchos pra expandir a franquia.

  9. Luiz disse:

    Desculpa, Fábio. Mas tenho de discordar quase que completamente do seu texto. Até pq, vc confunde o clássico Planeta dos Macacos com a série caça-níqueis que se seguiu. A explicação de Zira e Cornélio voltando no tempo e dando origem a César foi criada para o Fuga do Planeta dos Macacos, filme fraquinho… E, como vc bem deve saber, essa possibilidade é irreal, pq traz o Paradigma do Pai. Se vc volta no tempo e mata seu pai, vc nao nasce, então vc não volta no tempo e mata seu pai… então vc nasce, daí vc volta no tempo e mata seu pai… mas então vc não nasce, pq seu pai morreu… e por aí vai. Essa explicação do surgimento do César é assim. Ridículamente impossível.

  10. Licia disse:

    esse filme é mto bom! mas até ae, eu ja tinha gostado da versao com o Mark Wahlberg também…. e é isso ae: todo mundo acha q é diretor de cinema e técnico de futebol…. criticar é fácil…. quero ver ir pra Hollywood e apresentar uma ideia boa…..

  11. @rsaqqara disse:

    O post está bem escrito, a intenção é louvável, os argumentos são justos, mas… se fosse um filme, seria a saga da reflexão gigante em busca da resposta óbvia. É triste, mas não existe mais cinema sem apelo econômico. Tudo se faz objetivando arrecadação, fato incontestável. Esqueçamos esse negócio de arte, conteúdo, mensagem e outros conceitos do nosso idealismo ingênuo que causam impacto cultural quando citados na mesa do bar. Fiquei surpreso que o filme teve um roteiro, porque nem precisava. Todo o seu material de divulgação só evidenciou a tecnologia empregada. A proposta já era clara desde o pré-lançamento. Ninguém na Fox está preocupado com o conteúdo ou o respeito à cronologia original (entenda original como apenas o primeiro filme de 68). Os caras da Fox alcançaram a maior bilheteria da história do cinema com Avatar (o impacto visual é impressionante, diga-se de passagem), que não passa de uma demonstração de tecnologias ultramodernas alicerçadas num roteiro de gibi da Mônica. Portanto, quem manda é a bilheteria. Se a tecnologia está rendendo mais dinheiro que a “propriedade intelectual”, vamos continuar vendo uma enxurrada de filmes com técnicas que conseguem reproduzir com precisão nunca vista até o piscar do ânus de um símio.
    Enfim, tenho medo dos novos Prometheus, Blade Runner, Akira etc etc etc. A propriedade intelectual deles continuarão esquecidas nas sinopses de suas fitas VHS que vendem no Mercado Livre. É uma pena, mas é a nossa pílula vermelha.

  12. Interessante. Esse é um filme que eu não tinha vontade de ver, mas depois de ler a matéria e ler a polêmica nos comentários fiquei com vontade de assistir! No mais, acho que não há nada de errado em utilizar um universo com histórias paralelas/ não relacionadas ao original. :)

  13. “Planeta dos Macacos: A Origem” não é fruto de nossos tempos, nem é um reboot, se trata de um remake do filme original "A conquista do Planeta dos macacos" de 1971.
    A franquia origial do "Planeta dos Macacos" teve os seguintes filmes:
    1) O Planeta dos Macacos, (1968)
    2) De Volta ao Planeta dos Macacos (BR) / O Segredo do Planeta dos Macacos (PT) (1970)
    3) Fuga do Planeta dos Macacos (1971)
    4) A Conquista do Planeta dos Macacos (1972)
    5) Batalha pelo Planeta dos Macacos (1973)

    Apartir de 1974 foi lançado um seriado para TV "Planeta dos Macacos" exibido no brasil nos anos 80 e em 1975 uma série de animação para TV "De Volta ao Planeta dos Macacos"

    Ai foi feito em 2001 o filme "Planeta dos Macacos" de Tim Boorton e "Planeta dos Macacos: A origem em 2011

    veja em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conquest_of_the_Plan

    Abraços

    Guilherme