GUEST9: A relação da agência com a produtora de filmes no processo de aprovação de um filme (na visão de um Diretor de Cena)

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O GUEST9 apresenta toda semana um post desenvolvido por um leitor do B9. Um espaço para você falar sobre o que pensa, defender ideias e trazer novos pontos de vista para todos nós. Também quer escrever? Fique atento as chamadas no @brains9.

André Siqueira (Diretor de Cena da Margarida Filmes): Sou paulista e moro em Curitiba. Estudei Artes Cênicas, Psicologia e MKT e me especializei em Direção de Cinema e TV em NY com ênfase na direção de atores. Sou um apaixonado por TV, Cinema, Management e Gastronomia e hoje dirijo Publicidade.

“Se cada “um” fizer o “seu” focando a excelência do resultado final o processo fluirá bem melhor.”

De quem é o filme?

Para tentar responder essa pergunta precisamos ter muito claro que, antes de qualquer coisa, o filme precisa existir. Sem a pretensão de querer explicar todo processo de criação ou de produção, do briefing até a aprovação do on line; “esse” filme passa pela mão de muita gente – é muita gente dando palpite, cada um colocando seu ponto de vista, focando em seus próprios objetivos, com gostos e egos diferentes; enfim, é um processo que muitas vezes ultrapassa o conceito de colaborativo. É normal, mas exige atenção…

Costumo dizer que o segredo para um filme sem problemas na hora de ser aprovado está em uma pré-produção muito bem feita e isso já começa com a escolha dos profissionais ideais para aquele trabalho específico: não deve existir o papo “time que está ganhando não se mexe”; temos que ter dois, três times que sejam capazes de ganhar (e bem) os jogos. Um Diretor de Arte especialista em filmes de época, provavelmente não vai me entregar um cenário mais moderninho com a mesma maestria, da mesma maneira que dirijo um filme de relação, focado nos atores, infinitamente melhor que um filme de ação, cheio de perseguições, efeitos e CG. São estilos e como a agencia me escolheu por ele, tenho a obrigação de manter essa coerência na formação da equipe, já que aqui não existe nenhuma interferência.

Com a equipe montada e discutido o conceito do filme em cada detalhe (focando, inclusive, a própria expectativa do cliente / agência) é hora de deixar o povo trabalhar, sem muita intervenção, de forma aberta, mas sem perder a mão do leme. Cada departamento tem a obrigação de defender suas escolhas e discutir suas preferências com o Diretor de Cena, mas não podemos esquecer que, nesse momento, é necessários termos opções dos caminhos que podemos seguir, afinal a decisão a partir daqui, já não será mais 100% nossa.

É na reunião de produção que temos que alinhar todas as expectativas, discutir soluções e decidir cada detalhe. Deixo na mão do cliente e da agencia essas decisões, afinal toda equipe preparou uma pré-visualização do filme oferecendo o que se tem de melhor em cada item para que o resultado final seja perfeito. Claro, que tenho minhas preferências e faço questão de externa-las, mas gosto de deixa-los à vontade, já que estou muito seguro com a opções apresentadas – tudo já foi infinitamente discutido internamente na fase anterior.

Essas reuniões tendem a ser longas e muitas vezes cansativas, pois é realmente muita gente opinando. A linha é muito tênue entre o gosto pessoal e o que é melhor para filme, isso costuma gerar polêmicas e é aí que devemos interferir. Tem que estar claro que nada está ali por acaso e que profissionais, que sabem muito bem o que estão fazendo, sugeriram aquelas soluções. Nessa fase a agência costuma ficar ao lado da produtora, afinal, como o conceito estético já foi discutido, as referências tendem a estar de acordo e mesmo com o cliente divergindo em algum detalhe, a responsabilidade acaba sendo dividida ente nós e a relação, certamente, sai fortalecida.

Tudo foi decidido, tudo alinhado e documentado, é hora de produzir e ir para o Set. Gosto muito de ter cliente e agência no set. De preferência o Redator, o Diretor de Criação. Acho essencial a troca que acontece no set. Como trabalho em filmes com atores, achar a intenção ideal e trabalhar as pequenas variações fica muito mais fácil quando o criativo está junto. Eu normalmente faço o filme que combinamos primeiro e depois sugiro as variações com a ajuda da agencia e, eventualmente, do cliente. No meu caso essa dinâmica funciona muito bem, pois, novamente, mesmo trabalhando de maneira mais aberta, o controle do leme segue comigo e isso é sempre respeitado. Muitas vezes o RTV ou a Atendimento chegam em mim com algum pedido do Cliente – o que é relevante eu rodo, o que é jogo de “tentativa e erro” eu descarto na hora.

Na minha concepção essa interação é muito bacana, pois além de trazer todos para o filme, tenho mais pessoas criativas trabalhando ao meu lado e muitas vezes percebendo detalhes que eu não havia me dado conta. Existem casos onde o Criativo ou até mesmo o Cliente dirigem o filme junto com o Diretor, para mim isso é inconcebível. Liberdade tem que ter limite, afinal cada um faz o seu!

Hora de montar e aqui a pressão passa ser o bendito “prazo”. Como, no meu caso, o primeiro corte é sempre do montador, afinal ele vai me ajudar a contar aquela história com uma visão imparcial pois ele não estava no set (esse processo sempre agrega algo na narrativa). Pessoalmente não acredito no montador que apenas segue o roteiro, ele tem que sugerir, ele também tem que ser um artista, ter essa liberdade. Quando termino de filmar, um dia após o set já tenho duas versões para trabalhar, é quando sento na Ilha de Edição e vamos afinando cena por cena, take por take até chegarmos no que consideramos a montagem ideal. Vale dizer que é ele que me avisa quando o 1o corte está pronto, até lá nem apareço na produtora – acredito que esse momento deve ser dele e qualquer interferência pode contaminar o resultado.

Como gosto de apresentar a versão off-line quase finalizada, pois assim não corro o risco da agência (ou do cliente) não conseguir visualizar algo que ainda não está pronto, acabo negociando muito bem esses prazos com a agência para evitar correrias. Depois de apresentadas as montagens, procuro não dar muita abertura para alterações desnecessárias e como tudo foi minuciosamente destrinchado na reunião de produção, a agencia e o cliente me acompanharam no set, não deveriam haver alterações, certo? Teoricamente não deveria, mas sempre tem alguma coisa, e quando não vai contra todo o trabalho que fizemos durante o processo, tudo bem. Trocar uma ceninha por causa de um detalhe no acting por exemplo, ok, fora isso acho falta de respeito com todos, afinal se não é relevante para o filme passa a ser gosto pessoal, aí cada um vai ter o seu e fica complicado discutir. Cabe o bom senso da agencia e da produtora.

Agora, respondendo a pergunta do inicio do post, acho que o filme é um processo colaborativo que envolve todos os profissionais dessa enorme cadeia criativa; de alguma maneira todos podem (e muitos tem a obrigação) de contribuir para o resultado final do filme, o que temos que ter sempre a consciência é que cada um tem sua função, é preparado para ela, foi contratado e bem pago para exerce-la, então respeitar a decisão do responsável é primordial para que o processo e a relação Cliente / Agência / Produtora flua bem.

Bom, e de quem é o filme? O filme é todos nós que trabalhamos muito por ele, mas não adianta, como quem vai pagar a conta sempre vai ser o cliente…

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COMENTE
  • http://www.carlosmaca.com carlos fernandes

    Muito bom esse post tentamos sempre colocar em prática todo esse processo de construção e hierarquia.. as vezes isso não acontece!! Mas no final tudo sempre dá certo

  • http://robertostahelin.blogspot.com Roberto

    Sou redator e achei interessante conhecer esses processos na visão de um diretor que vai colocando os pingos nos "is" conforme ele acredita. Não deixe de fazer isso no seu dia a dia. Nosso mercado ganha muito com pessoas como você.

  • http://www.cristianocensoni.com cristiano censoni

    Acho que muitos designers e publicitários não entendem ainda o poder e a importância que a marca tem para uma empresa. É sua representação simbólica que está ali.
    100 milhões na marca de uma empresa que vale bilhões de dólares NÃO é um absurdo em hipótese nenhuma, pois a marca representa todo aquele patrimônio e muitos outros mais que são intangíveis e se apresentam na forma de sentimentos e emoções dos consumidores e indivíduos que interagem com a marca e a empresa.

    Minha opinião é que uma marca em muitos e muitos casos vale muito mais que o patrimônio material da empresa. Por isso deve ser muito bem pensada e estudada quando for desenvolvida.
    Seu preço deve ser coerente com o tamanho da sua abrangência, do seu poder no mercado, do seu tamanho enquanto negócio e outros fatores.

    O tempo passou, quem gosta de branding sabe. Passou a época que construir uma marca era fazer um desenho bonito sobre o nome ou o produto a ser vendido.