Imaginação sem limites: B9 entrevista Terry Gilliam

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Terry Gilliam Parnassus

Único norte-americano integrante dos lendários Monty Phyton, ilustrador genial e diretor de filmes “impossíveis” e “inacabados”, Terry Gilliam se viu diretamente envolvido na catástrofe da morte de Heath Ledger, o ator principal de “O Imaginário do Dr. Parnassus”, durante as filmagens. Nada de surpreendente, afinal, a vida de Gilliam nunca foi simples mesmo com uma seqüência invejável de sucessos de crítica como “Os 12 Macacos” e “Brazil”. O cineasta recebeu o Brainstorm9 para uma conversa sobre sua carreira, o surrealismo de suas criações e a dificuldade de conseguir financiamento para seus projetos.

Antes de mais nada, se você não sabe quem esse cara, em vez de receber as 12 chibatadas habituais e ganhar um lugarzinho especial no meio do inferno, falemos um pouco sobre seus filmes. Além dos citados “Os 12 Macacos” e “Brazil”, Terence Vance Gilliam comandou e escreveu “Monty Python e o Cálice Sagrado”, um dos melhores e mais célebres filmes da trupe inglesa, emendando com “Jabberwocky” e “Time Bandits”. Sempre mergulhado na fantasia e no surreal, Gilliam nunca perde a chance de fazer uma crítica social e tem grande carinho por seus personagens, normalmente malucos, mas cheios de segundas leituras e peculiaridades insanas, como o burocrata de “Brazil”, o místico imortal de “O Imaginário do Dr. Parnassus” ou qualquer um do elenco de “As Aventuras do Barão de Munchausen”.

Terry Gilliam Parnassus

A maior característica de Gilliam, porém, é a extrema criatividade necessária tanto para situações quanto para personagens fora do normal, mas, de algum modo, facilmente relacionáveis com o espectador. Em seu mais recente trabalho, “O Imaginário do Dr. Parnassus” essa tendência é explorada ao máximo com diversos mundos paralelos e até mesmo versões do próprio personagem. É tanta alucinação que falta explicação, coisa que ele tenta fazer no bate-papo que você lê a seguir.

| ENTREVISTA |
B9: Seus filmes são uma espécie de contra-ataque para esse mundo tecnológico moderno, não?
Terry Gilliam: Estamos tão afogados em informação atualmente. Seja por conta própria ou mesmo pela mídia nos forçando a saber mais. Sinceramente, não sei como é possível manter nossa identidade como indivíduos nesse contexto e, acima de tudo, como imaginar e ver o mundo da maneira mais adequada a cada um. É complicado.

Tive a sorte de crescer na era do rádio e por isso imaginei praticamente tudo durante toda minha infância e adolescência. Sempre penso no nas reações do meu filho quando vamos para nossa casa na Itália – sem telefone, sem televisão – e ele ficava entediado pela ausência das bugigangas que faziam tudo para ele, especialmente o vídeo game e a TV. Dava dó e minha esposa ficava agoniada para tentar entretê-lo, mas eu dizia: espere um pouco! Dois dias depois ele começava encontrar sua própria diversão, construía brinquedos usando gravetos e madeira, imaginava coisas fantásticas naquele lugar – que já era muito bonito, por sinal – e começou a brincar com base em sua própria cabeça.

E adivinhe qual a primeira coisa que ele fazia quando voltávamos para casa? Ligava a televisão e abandonava tudo aquilo (gargalhadas). Quero que as pessoas se desconectem. Muitos filmes se concentram em relacionamentos, conexões interpessoais e tecnologia. Meu objetivo é ensinar as pessoas a reaprenderem a ficar sozinha e aproveitar as vantagens de um pouco de solidão. Desliguem tudo e descubram sua própria companhia. E, acima de tudo, descubra se tem alguém em casa; ou se você é apenas uma ligação sináptica flutuando no espaço (gargalhadas)

E como você faz isso?

TG: Jogo um monte de merda na frente de vocês [gargalhadas] e, com sorte, provoco reações no público. Ou não. Basicamente, lanço a ideia e cada um pode ler da maneira que achar cabível. As referências não têm uma leitura correta ou incorreta, tudo é subjetivo. Logo, se você ver algo e a pessoa do seu lado não, de forma alguma um de vocês é mais ou menos inteligente. São pontos de vista. Ofereço possibilidades, faço perguntas, não dou respostas ou muletas para ninguém e torço para que ninguém resolva ir embora antes do final da projeção (gargalhadas).

Mas ao mesmo tempo, em “O Imaginário de Dr. Parnassus”, por exemplo, a mediocridade também pode ser um objetivo em meio a tanta possibilidade de descoberta.
É apenas uma personagem, mas sim. Não resisti a essa ironia de ver alguém tão mergulhada e cercada por maravilhas imaginárias, poderes sobrenaturais e possibilidades imensas se vê deslumbrada por uma vida simples, desprovida de magia e cheia de domesticidade burguesa e móveis da IKEA. A vida de Parnassus é um sonho meu e reforço a importância dele aceitar as escolhas alheias, sem abrir mão de sua própria maneira de ver o mundo. Se ela quer assim, que seja.

Além do aspecto pessoal, como a morte de Heath Ledger afetou as filmagens de Dr. Parnassus?

A decisão de continuar o filme foi a mais difícil, mas uma vez que ela foi tomada, o resto se encaixou. O personagem entra no espelho três vezes, logo, três atores poderiam representar essas fases. Chamar apenas uma pessoa para substituí-lo nunca foi uma opção. Incluir Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell foi complicado por conta de calendários, mas foi ótimo. Escolhemos amigos de Heath para fazer isso. Eles chegaram, não ensaiaram e filmamos. Com Johnny [Depp], por exemplo, tivemos 3h30 num único dia. Era tudo ou nada.

Quando assisti a primeira vez pensei: ‘como conseguimos fazer essa p$%$?’ [gargalhadas]. Um modo de entender esse acontecimento é pensar que, durante aquele tempo, esses atores deixaram seus egos de lado e fizeram algo por e para Heath. Precisamos de pequenos ajustes, mas nada relevante em termos de personagem. Alguns podem pensar que fizemos analogias a Heath Ledger, mas tudo já estava escrito. Esse filme analisa a mortalidade, logo essa tragédia vai, inevitavelmente, se relacionar.

E por que não mudar os demais atores a cada visita ao mundo do espelho?

A lógica [risos], ou melhor, a linha de raciocínio é a seguinte: cada uma das pessoas que atravessa o espelho mergulha em sua própria imaginação, então tudo que acontece ali é reflexo desses desejos. Por exemplo, quando a “mulher Louis Vuitton” – como a apelidamos – entra em cena, ela vê todos aqueles sapatos, bolsas e outras coisas. É o Buda do consumismo. A iluminação através das compras (risos). E, de repente, ela vê Johnny Depp e diz ‘sempre sonhei que você fosse assim’. É o sonho dela. Por outro lado, quando a imaginação de Tony entra em cena, ele está vendo Valentina flutuando por todo lado. E ela está um pedaço de mau caminho (risos).

Seja pelo roteiro de Dr. Parnassus, o interesse por “Belas Maldições” [de Neil Gaiman] e a constante referência a demônios, qual a importância desse tema?

Essa relação sempre esteve presente no meu trabalho. Estudei numa escola religiosa com uma bolsa de estudos da igreja presbiteriana, pô! (risos). O demônio sempre esteve presente na forma dessas dicotomias – Bem e Mal, certo e errado, etc – e por isso me interesso pelo tema na minha vida toda. É por isso que tenho interesse em Belas Maldições e é por isso que escrevi “O Imaginário do Dr. Parnassus”. É uma obsessão mesmo, mas às vezes consigo botar para fora (risos).

Pretende filmar “Belas Maldições” mesmo ou é apenas um modo de exercitar essa catarse?

Vontade não falta, claro, mas o projeto está quietinho no lugar dele. Precisamos de muito dinheiro e é uma narrativa diferente mesmo com a existência de um Anjo e do Demônio. É complicado encontrar alguém disposto a assumir financeiramente. As relações cinematográficas mudaram e, hoje em dia, em muitos casos, os estúdios definem os orçamentos dos filmes mesmo antes de começarmos a trabalhar. Quem sabe um dia.

Há espaço no cinema moderno para o seu estilo de arte?

Eu faço meu espaço! (gargalhadas) É uma das vantagens de ser o dono do circo!

Mas seus colegas diretores usam cada vez menos esse estilo em prol do 3D ou da animação mais “moderna”. Tudo praticamente gerado por computador.

O que tem acontecido é uma busca pela naturalidade, especialmente em filmes live action carregados de CGI. Pode ser um mundo fantástico e extraordinário, mas todos querem, em níveis diferentes, recriar algo realístico. Essa busca não me interessa. Por isso, tento inserir um ar de pintura a meus filmes. Se tivesse que usar algo assim, o resultado seriam atores de verdade e background de filmes da Pixar (risos). Preciso e gosto desse tipo de liberdade.

Isso aconteceu em Dr. Parnassus. Não tinha dinheiro para competir com um filme milionário de fantasia, então o que fizemos? Usamos um espelho, jogamos os personagens lá dentro e fizemos de tudo para tirá-los de lá antes de gastarmos uma fortuna (risos). Foi assim que deu certo. Um dos resultados desses filmes milionários é gastar todo esse dinheiro para fazer algo semelhante ao real. Normal. Já vivemos no real. Então, me agrada muito mais a idéia de ver os personagens nessas idas e vindas e, a cada uma delas, você encontrar um novo mundo. De certa forma, influenciado e revitalizado pela viagem anterior. É uma surpresa constante, quase um delírio. Mas sempre capaz de manter viva a pergunta: o que vai acontecer agora?

É assim que você vê suas ilustrações? Elas têm aquele toque de conto de fadas, mas com bases num mundo real e sempre surpreendente.

Uau! Não paro para analisar meu trabalho e, pelo jeito, você deve entender mais disso do que eu (gargalhadas). Sem dúvida essa qualidade de conto de fadas existe, mas também é preciso pensar no benefício que isso traz à história. Outro dia assisti a um de meus filmes – sem volume – e notei que foi possível acompanhar a trama como se fosse um filme mudo.

Não é preciso saber todas as palavras para comunicar através do cinema. É possível entender quem é o herói, o vilão, onde eles estão e etc. Fiquei maravilhado. Estava feliz por poder aquelas imagens como uma criança diante de um livro ilustrado. Foi uma experiência semelhante a ler “Onde Vivem os Monstros”, do [Maurice] Sendak; uma página pode consumir horas do seu tempo com todas aquelas possibilidades e magia visual. Tento fazer isso em meus filmes a cada quadro. Assim vocês podem assistir com mais interesse.

As coisas mudaram depois de tantos filmes elogiados e projetos de sucesso?

(gargalhadas) Quem me dera. Tudo continua do mesmo jeito. Cada filme é o primeiro filme da minha vida, cada orçamento é o mais difícil da minha vida. É sempre difícil fazer as coisas acontecerem.

Cada viagem a Hollywood para mendigar dinheiro para meus filmes os estúdios reagem do mesmo jeito: ‘Adoramos todos os seus filmes, Terry. Somos grandes fãs, de verdade. Apaixonados… humm, mas esse filme? Não sei, não… Estou em dúvida.’ (gargalhadas).

Escuto isso há 25 anos. A lista de filmes que eles amam cresce, mas as dúvidas continuam. Nietsche estava errado: o que não te mata não te faz mais forte, só te deixa muito mais cansado.

O que te surpreende no cinema?

Atores me surpreendem. Sempre torço para ser surpreendido e Heath Ledger fez a maior de todas. Uma surpresa que eu não queria, mas me surpreendeu.

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COMENTE
  • http://www.rafaelscavone.com Rafael Scavone

    Ótima a entrevista! Terry Gilliam é o cara!

  • Viton Araujo

    Sensacional a entrevista, uma conversa franca e clara sobre a filosofia por trás da obra do Terry, obrigado por isso!

  • http://www.diversita.com.br Ricardo Oliveira

    Poxa, era pra ter perguntado se ele vai lançar o Blu-ray do show do Arcade Fire que ele dirigiu… =D

  • http://www.flickr.com/raphaelgonzalez Gonzalez

    Parabéns pela entrevista Fábio, perguntas pertinentes são raridade nos dias de hoje.

    Abs,

  • fernanda teodoro

    Adorei a entrevista. O filme Dr. Parnassus ficou mto bom, a adaptação com os outros atores, parece que já fazia parte do roteiro; Mas senti falta de alguma pergunta sobre o Monty Phyton.