Fechar [X]


GUEST9: Academia vs. Mercado

O GUEST9 apresenta toda semana um post desenvolvido por um leitor do B9. Um espaço para você falar sobre o que pensa, defender ideias e trazer novos pontos de vista para todos nós. Também quer escrever? Fique atento as chamadas no @brains9.

Laura Andrade é publicitária e trabalha no planejamento da Escala, em Porto Alegre.

 


Se tem uma coisa que tenho pensado muito ultimamente é sobre o mercado da comunicação e a pesquisa acadêmica trocando informações e bebendo da mesma fonte para responder suas maiores dúvidas. Principalmente em relação ao futuro. Esse é um movimento que me interessa muito. Inclusive pela experiência na pesquisa acadêmica que tive na universidade e, claro, por hoje trabalhar em uma agência.

Quando comecei o curso de Publicidade & Propaganda (na UFRGS) já ouvia muita gente dizendo que a faculdade não serviria para (quase) nada se a minha intenção fosse “ser publicitária”. Diziam que a metodologia era atrasada e que no mercado “as coisas eram completamente diferentes”. E de fato, foi o que eu comecei a ver: fora as cadeiras práticas, parecia que, trabalhando com propaganda, eu nunca colocaria em prática o que ensinavam na universidade. Além disso, conheci muita gente competente que sequer possuia formação em comunicação. Nesse momento entendi porque não precisávamos do “canudo” para sermos publicitários. Era uma profissão que exigia muita prática e dedicação: muito mais “perna” do que “cabeça” (por favor, não quero dizer que para ser publicitário não é preciso pensar, mas sim que, aparentemente, o contato com o lado acadêmico era em grande parte desnecessário).

Depois de uns 4 anos atuando no mercado (e mais um ano de mergulho na pesquisa acadêmica em Cibercultura), voltei a trabalhar em uma agência. E só então comecei a perceber o que (na época da faculdade) não havia visto: o mercado e a academia estavam finalmente conversando e bebendo da mesma fonte.

Claro, não sou nenhuma especialista nisso… mas ainda assim especulo: essa (melhor) fluidez entre o mercado e a academia foi fruto dessa revolução digital? A internet contribui para essa ligação entre os dois universos? Me parece que sim. Pois são tantas mudanças acontecendo em todos os campos (comunicação, business, comportamento, relacionamentos interpessoais, dinâmica das cidades, política, etc) que tenho a impressão que toda a incerteza e insegurança sobre como agir, se comunicar, resolver os novos desafios e encontrar o caminho ideal para o futuro faz com que esses dois mundos (mercadológico e acadêmico) busquem novos meios de entendimento e a percepção de que é necessário aprender um com o outro.

Minha impressão era que a pesquisa acadêmica, cheia de regras, paradigmas e muita seriedade, parecia desprezar o mercado da comunicação (como ele realmente é) e até mesmo considerá-lo sem o valor necessário. Talvez porque, vendo de dentro de uma universidade, o estudo científico dá a impressão de que o que acontece no dia a dia da propaganda seja raso e superficial. Mas isso não é verdade. O mercado nos ensina tudo mais no estilo “à queima-roupa”: coisa que nenhuma academia chega perto. Porém a academia, minuciosa, parece ter pescado um pouco antes o que o mercado vem colocando em prática há pouco: a internet não é uma tecnologia, ela é um modo de viver. Uma forma de fazer o mundo andar. Sabemos que o mercado por muito tempo viu a internet apenas como se ela fosse “mais uma mídia”. E no meio acadêmico ela sempre foi um fenômeno social (e não só tecnológico), estudado há bastante tempo.

A Cibercultura – que resumidamente pode ser entendida pela parte social da tecnologia, como se dá o impacto e as relações da sociedade com as novas tecnologias – tem se mostrado um campo extremamente fértil. Seu diferencial parece ser o fato de estudar os fenômenos sociais da tecnologia quase em tempo real. Diferente de outras áreas de pesquisa, a Cibercultura está up-to-date com os acontecimentos do mercado. Por exemplo: já temos livros e pesquisas científicas sobre o Twitter há tempos. Memes, rede, colaboração, nicho, crowdsourcing: a internet está sendo dissecada por todos os lados na academia e isso também está acontecendo no mercado.

“A revolução não acontece quando a sociedade adota novas ferramentas. Acontece quando a sociedade adota novos comportamentos.” Clay Shirky

A surpresa desse encontro da academia com o mercado? Teóricos, sociólogos, filósofos que há muito embasam a pesquisa acadêmica em comunicação são os mesmos que estão aparecendo nas palestras, discussões e trabalhos inovadores que vemos no mercado. Pode ser só uma realidade próxima a mim, mas tem muito publicitário hoje estudando a pós-modernidade, a cultura de nicho, a colaboração, o conhecimento coletivo, o conflito geracional pós-era digital, a sociedade em rede. Exatamente o que a pesquisa em Cibercultura vem estudando há mais de uma década. Chris Anderson, autor da “Cauda Longa“, é um bom exemplo: aparece com a maior naturalidade em trabalhos acadêmicos e também por trás de movimentos mercadológicos. O guru do transmedia storytelling, Hery Jenkins, também (quem nunca viu uma palestra ou um post em blog de comunicação sobre storytelling?). Bauman, sociólogo da modernidade líquida, é pop. E o conceito de inteligência coletiva, de Pierre Lèvy, também aparece muito na defesa de trabalhos que usam plataformas colaborativas. Clay Shirky, citado em trabalhos de pesquisa em cibercultura apareceu na apresentação do IBOPE Mídia no Maximidia 2010. Até a tendência atual de buscar o equílibrio depois de tanta overdose de tecnologia aparece nas tendências em comunicação, como no trabalho apresentado pela JWT10 trends that will shape the world in 2011” e no livro da pesquisadora do MIT, Sherry Turkle, “Alone Together“.

Esse caminho trilhado junto pela academia e pelo mercado na tentativa de explicar o que está acontecendo (e o que vai acontecer) com as pessoas e com o mundo e em meio a esse turbilhão representado pela chegada (estabelecimento e evolução) da internet tende a ser cada vez mais rico e cheio de surpresas boas. Parece que não tem como retroceder. O mundo mercadológico e o mundo acadêmico estão conversando quando o assunto é comunicação. E isso tem que ser comemorado.

8 Responses to “GUEST9: Academia vs. Mercado”

  1. pokabeblook disse:

    Essa conversa entre o mundo acadêmico e o mercado pode ser válida no caso de um curso de pós-graduação, mestrado, etc, mas a graduação em comunicação (tanto PP, RTV, RP, Jornalismo) ainda está bem longe disso.

  2. aukm0el disse:

    Laura, gostei do seu texto e me identifiquei com ele.

    Durante os primeiros períodos do meu curso de comunicação na UFRJ, confesso que ficava meio com inveja dos alunos da ESPM por causa da visão de mercado a que eles têm acesso dentro da universidade. Mais tarde, porém, fui aprendendo a valorizar o peso que uma federal tem no campo acadêmico, especialmente na área de comunicação. E quem me ajudou a ver isso foi o próprio mercado; como os trabalhos e pesquisas dessas pessoas que você citou estão ganhando mais e mais relevância no nosso campo.

    Hoje, também trabalho com planejamento em agência. Concluí meu curso ano passado, e até os 45 do segundo tempo minha monografia ia ser case de marketing. Quando vi que tinha que fazer sobre um tema que eu realmente gosto, escolhi cibercultura (mesmo não tendo estudado muito o assunto durante o curso) e fiz meu trabalho sobre ciberativismo. Fiz um estudo de caso do grupo Anonymous e do Project Chanology sob a ótica do Clay Shirky, juntamente com outros autores que o meu orientador e outros professores me recomendaram (como Lévy).

    Gostei muito do processo de pesquisa e até considerei engrenar um mestrado, mas já estava trabalhando com planejamento, e não podia interromper naquela hora. E acho que não vai acontecer tão cedo, mas que ficou uma vontade, ficou. Penso em tentar continuar produzindo e estudando, talvez escrevendo artigos tipo INTERCOM, se o tempo permitir.

  3. Marcos Leonel disse:

    Concordo com a @pokabeblook, essa proximidade deve acontecer na pós, na graduação ainda falta bastante. A questão é que a comunicação é sempre um estudo antropológico / sociológico, por mais que se use a tecnologia, a grande base teórica é a compreensão do ser humano e como ele convive em sociedade. Tendo isto como base, o diferencial seria a força de vontade, disposição e a criatividade para utilizar esta base de conhecimento e a tecnologia em função da mensagem. O homem é o centro dos nosso esforços.

  4. Guilherme Monteiro disse:

    Tbm concordo com a pokabeblook, Aqui no interior de São Paulo as faculdades ainda teimam em ensinar os alunos a criar anúncios de jornal, revista, spot para rádio e vt de 30" para a Tv. Talvez seja porque é essa a realidade do mercado aqui. Mas me pergunto, se a faculdade que está ali para desafiar todos os dias seus aalunos não faz isso, como implantar coisas novas nesse mercado?

    • Laura Andrade disse:

      É Guilherme, apesar de muitas vezes ainda ser difícil a troca entre a universidade e o mercado e a mistura entre a teoria e prática, acredito que essa revolução "digital" que estamos vivendo tá sacudindo essa relação também. Vamos torcer pra que só melhore para os dois lados (academia e mercado) ;) Concordo contigo: formar profissionais pro mercado de hoje com o mesmo currículo há décadas nas faculdades de comunicação é uma fórmula esgotada!

  5. Eu acho que tudo isso está criando uma ligação mais forte novamente pela necessidade de entender os novos mercados que estão aparecendo. O mercado de trabalho está pronto para o que ele já viu, mas ainda muito verde para aquilo que está acontecendo agora.

  6. Marina Vieira disse:

    Laura, tudo bem? Quase dois meses desde este post que eu tive a felicidade de lê-lo agora. Sou redatora em uma agência do interior de Minas (que prioriza as mídias impressas e eletrônicas) e começamos efetivamente a utilizar as ferramentas digitais. Um processo longo, porém, pelos trabalhos executados, próspero.

    Tive algumas experiências em agências digitais e gostaria de retornar a este meio novamente. Vi algumas referências citadas no seu post, que inclusive já foram anotadas, mas gostaria de alguma bibliografias inciais para o os primeiros contatos acadêmicos com a cibercultura e este assunto complexo.

    Muito obrigada, parabéns pelo post e pela abordagem deste tema.

Leave a Reply