Fechar [X]


Os oportunistas da Sustentabilidade

Estou cansado desse papo de sustentabilidade permeando todos os produtos e campanhas que fazem parte do nosso dia a dia. Sabemos da responsabilidade (individual e também coletiva) que carregamos: o Planeta foi usurpado por muito tempo sem a atual preocupação de consumir os recursos naturais de forma que não afete as próximas gerações. Mas a impressão que tenho hoje é que escrever “sustentável” no enxoval de um produto/serviço se tornou uma forma clichê de dizer que se você (empresa) se preocupa e, muitas vezes, ainda se aproveita para tirar mais dinheiro do bolso dos seus consumidores com esse papo verde.

Meu avô dizia que “quem faz pra valer, não conta pra se vender”. E ele tem razão. Há muito tempo vi no Globo Repórter a história de um alemão que falsificou centenas de documentos e enganou o exército nazista para desviar um trem lotado de crianças judias com destino a câmara de gás, e assim salvá-las. Fez isso e não contou pra ninguém, até que 50 anos depois, a esposa – numa faxina no sotão de casa – encontrou esses documentos num baú… e levou a história a público. E quando o repórter questionou a razão dele não contar para ninguém, a resposta foi: fiz o que era preciso ser feito. Um herói silencioso (assista aqui).

Não é exagero dizer que hoje é o nosso futuro a caminho do holocausto: água, prata, ferro e hélio já são alguns dos recursos que estão perto do fim. E, embora exista uma artilharia de mensagens do tipo “somos uma empresa sustentável”, ainda são poucos os movimentos que nos ajudam a entender e fazer a nossa parte (em conjunto com as companias), sem lucrar mais ainda conosco. Falo por mim: pouco importa se meu banco, supermercado ou tv a cabo me dizem “somos sustentáveis”. Não posso acreditar nesses discursos, sabendo que grande parte dos maus tratos que nosso planeta sofre são consequências do crescimento econômico, que causa uma demanda maior na exploração dos recursos naturais.

 

“- Salvar o planeta ou faturar mais 100 bilhões, CEO?”
Imagine só…

 

 

34 Responses to “Os oportunistas da Sustentabilidade”

  1. erick disse:

    prova extrema disso é a Stihl, marca de SERRA ELÉTRICA, que adotou o seguinte slogan: TECNOLOGIA A SABOR DA NATUREZA. Deveria dar cadeia.

  2. Aline Vilela disse:

    Não concordo completamente. Há quem faça e faça mesmo com o intuito de despertar interesse e contagiar, servir de exemplo. A questão é ver que selo verde é esse que os produtos estão levando, e se realmente estão cumprindo com o que prometeram. É a confiança. Creio que quem tá levantando a bandeira verde, não quer perder a confiança por algumas malinhas de dinheiro. É gente grande. Mas curti o post pras empresas refletirem.

    • smileti disse:

      Olá, Aline!

      Olha… depois de lermos Maquiavél, não nos surpreenderia se muita gente optasse a malinha de dinheiro ao invés da natureza em seu devido lugar, concorda? :)

      O que eu acho dose é o tipo de atitude que as empresas tomam. A maior parte delas compra cota de carbono, de uma terceira empresa, que "diz" plantar X árvores em troca de Y milhões. É como o Wacka comentou aqui: A Vale (ex) resolve o problemas das crateras que abre no planeta, plantando pinheirinho. Aí não dá, né? :)

      Obrigado pelo comentário!

  3. Murilo Campos disse:

    concordo… usar papel reciclado nao significa que sua empresa é sustentavel

  4. Ola Saulo, belo artigo, parabéns. Concordo com você, as empresas estão simplesmente perdidas e sem saber oque fazer encaram a sustentabilidade como uma tendência de mercado, um nicho que esta crescendo e recorrem ao marketing para fazer parte de alguma maneira deste "universo".

    O grande ponto é que a sustentabilidade não é um modismo, é uma mudança comportamental e profunda das pessoas e de todas as instituições.

    Defendo que este momento é uma ótima oportunidade para repensarmos como se estruturam empresas, como se faz captação de recursos e quem são os atores que definem que produtos e serviços devem existir para a sociedade.

    Vejo como um momento positivo e de transição, acredito que no longo prazo todo este marketing vazio simplesmente não vai funcionar, o marketing verde hoje chega a ser ingênuo, afinal como falar e responsabilidade com seus colaboradores se não existe nenhum mapeamento da cadeia de produção ou um programa de expansão ou aproximação do comércio justo? Como falar de gerenciamento de impactos sem transparência radical? As pessoas, principalmente as que se movimentem em pról da sustentabilidade não são tão superficiais como estas propagandas.

    Empresas sociais, empreendedores verde, startups colaborativas, o crowdsource, crowdfunding,escambo, trocas, reputação social vem com tudo nestes próximos anos, vem com propostas novas, frescas e com o principal: uma mudança profunda na maneira como fazemos negócios. São estas iniciativas que vão colocar o lucro no mesmo patamar das pessoas e a natureza.

    Convido você a ler um artigo que escrevi sobre o assunto: http://www.coletivoverde.com.br/sustentabilidade-

    Abraços, Guilherme

    • smileti disse:

      Guilherme, obrigado pelo comentário! Vou ler com calma, e comento depois por aqui!
      Falamos! :)

    • Larissa disse:

      Não acho que as empresas estejam perdidas. Na verdade elas estão muito bem localizadas. O discurso verde surgiu, e não é tão recente assim, e viram nele uma possibilidade de agregar valor aos seus produtos. O que a gente vê é que as empresas vendem, como diz o Saulo, muito mais do que fazem. E além de usarem a sustentabilidade como estratégia de marketing, ainda repassam esse custo para o cliente. Se você quer ser um consumidor que apoia a sustentabilidade, então pague mais caro por isso! E bem mais caro muitas vezes…

      • As empresas "estão muito bem localizadas"… Realmente deve ser isso mesmo. Estão posicionadas: sabem o que é preciso fazer para convencer os consumidores a comprar uma "ideia verde", mas, na maioria dos cados, não é nada além disso. Agregam ideias e valores aos seus produtos, intencionamente com o objetivo de fortalecê-los, mas pouco fazem para realmente transformar ideias em ações concretas que beneficiem a natureza e as pessoas.

  5. Felipe Giacomelli disse:

    Todo mundo cresceu lendo nos livros de história e geografia que o homem vem destruindo o planeta, a intervenção do homem isso, a natureza sofre nas mãos do homem, etc e tal. Mas e a mulher? Não tem culpa também? hehehe

    Brincadeiras à parte — e olha que essa foi sem graça — Todo mundo sente um pouco de culpa, uma parcela mínima que seja, por dirigir seu automobile fumacento, por consumir aquele produto tóshico, whatever…

    E qual a grande sacada do marketing atual? Vender um produto green que amenize essa culpa. Fazendo que seu produto alcance 100% do target, pois todo mundo tem essa parcelinha de culpa. =)

    E se você tá de saco cheio, tá fu… Pois garanto que essa onda vai longe!

  6. Wacka disse:

    Achei que so eu pensava assim! Concordo em genero, numero e grau. Querem outro exemplo absurdo? A Vale. Pregam sustentabilidade. Como??? Abrem buracos no planeta e plantam pinheiros pra dizer que esta tudo bem. Já fiz campanhas e trabalhei em empresas que são "sustentaveis", mas sequer separam lixo. Tudo conversar pra boi dormir. Ei! Sou sustentável! Vejam como reciclo minha comida dentro de mim! Uau! bah…

  7. Josh disse:

    Relaxe, coma essa cenoura orgânica e tá tudo bem.

  8. Elias Figueiroa disse:

    Bom, encontrando uma lacuna, há um ex-super (ex?) empresário investindo no que realmente pode funcionar: http://olhardigital.uol.com.br/produtos/digital_n

  9. Fábio disse:

    Concordo plenamente com texto e com as comentários.
    Sou Arquiteto e estou ciente que a construção civil é uma das maiores geradoras de resíduos hoje em dia. Mas na minha área a sustentabilidade virou palco para marketing barato e sem escrúpulos, obrigando a nós, profissionais a se "atualizar" através de livros e cursos de fim de semana com preços exorbitantes e que raramente acrescentam alguma coisa em conteúdo.
    Sinceramente estou tentando fazer meus projetos de forma mais responsável a fim de diminuir resíduos no final da obra, mas estou cansado de ver empresas de arquitetura com folhinhas verdes como símbolo, mas que na verdade só querem captar mais "verdinhas"!!!

  10. Luan Zubaran disse:

    Estou fazendo meu TCC exatamente sobre isso, sobre como o consumidor compreende esse discurso sustentável de algumas empresas. E apesar de não ter começado a pesquisa efetivamente ainda, pude perceber que esse é majoritariamente o sentimento de muitas pessoas, ninguém mais acredita nesse papo verde. É uma pena mesmo…

    Muito bom texto, parabéns!

  11. caiolatorre disse:

    Saulo, você é um desgraçado. (Primeiramente)
    Gosto e acompanho suas publicações periodicamente e, cara… preciso te dizer: esse foi o melhor texto que eu já li na B9. A princípio, (es)tava sem vontade de ler. Achei o assunto meio "batido", mas desconsiderei a brisa prepotente passageira (?) e "caí pa drento"! Que surpresa! O assunto, ainda me soa um pouco do mesmo. Mas arroz, eu como todo dia, só que o seu tempero tava melhor. Pra mim, o que diferenciou (pra melhor. muito, MUITO melhor!) foram as menções ao avô e Nicolas Winton. E mais: a sinceridade. Eu, enquanto reles estudante de jornalismo, admiro o posicionamento direto e até escrachado, em alguns momentos, que vocês mantém e a liberdade que a B9 permite.
    Muito bom mesmo. Parabéns!
    Sucesso ae, vamo no show do Kyuss e um abralho!

  12. Ale disse:

    Parabéns Saulo!
    Já estava na hora de alguém botar esse assunto em pauta num grande canal de comunicação como o B9. Pra mim esse papo de ser sustentável só vai se sustentar enquanto der lucro para as empresas, a hora que surgir uma nova modinha lucrativa, elas trocam rapidinho o discurso.
    Porque do modo das empresas é fácil ser sustentável, elas não gastam nada com isso, pois tudo está embutido nos preços de suas mercadorias.

  13. Padre disse:

    A imagem do pai e filho se parece muito perturbador. Talvez esta seja a maneira de chegar ao público ser sério sobre mensagens importantes.

  14. Wesley disse:

    Para todos os eco-chatos de plantão que enchem o saco com esse papo de sustentabilidade 24h por dia, assistam isso: http://www.youtube.com/watch?v=eScDfYzMEEw

  15. Felipe Lomeu disse:

    Excelente post. Um case bacana de #fail foi o da Coca Cola querendo convencer formadores de opinião de sua "sustentabilidade".

  16. Glaubert disse:

    Eu me lembro de uma propaganda na TV, acho que era mais publicidade de uma organização do que propaganda de um produto específico, mas enfim … no tal vídeo, mostrava o orgulho do Brasil sustentável mostrando que reciclamos quase 100% das latinhas de refrigerante, etc. Ok, isso é uma verdade! Mas o que acontece é que esta reciclagem não é por causa de um pensamento sustentável e sim, por pura necessidade de dinheiro dos catadores. Ou seja, aproveitaram uma realidade de exploração e deram uma roupagem bonita!!! Ridículo!!!

  17. Vincius Lima disse:

    Muito bom o texto e concordo com ele. Apenas acho que apesar de ser uma auto promoção por parte de muitas empresas, a busca para mostrar que são empresas sustentáveis, eles se utilizam de mecanismos que ajudam diretamente na preservação da natureza, reduzindo o impacto causado por suas atividades, consequentemente gerando uma consciência dentro e fora da empresa, um senso crítico e sim uma cobrança posterior, os obrigando a manter essas ações e intensificá-las, ou seja, elas iniciam um processo com um motivo e acaba tendo que mantê-lo por outros.

  18. monica_lage disse:

    Nossa! tava conversando ontem com um amigo num jantar "papo cabeça" sobre isso. Perfeito o texto! Parabéns!

  19. Diogo Rodrigues disse:

    Oi Saulo,

    Parabéns pelo tema escolhido para o seu post, porém sinto que faltou um "puxão de orelhas" para todos que forem ler.

    Sempre que vejo a palavra sustentável em algum lugar, penso automaticamente em reciclagem, como se elas fossem sinônimos. Por isso, não penso que quando as empresas vendem a ideia de verde seja apenas uma maquiagem, uma forma de agregar um valor fictício ao produto para poder justificar um aumento de preço. Já que uma empresa ao combater o desperdício de água, energia, materiais, entre outros, ela está a economizar = lucro. Então ser sustentável não é apenas bonitinho, ou responder aos consumidores conscientes, mas sim um exercício de pura lógica, para não chamar de senso comum.

    Agora, mais do que analisar esse marketing verde e aproveitando o gancho, como todo o respeito, do seu avô, quais atitudes sustentáveis estamos a tomar? Será que separamos o lixo úmido do seco? Será que levamos o seco para centros de reciclagem? Os números são escandalosos, hoje no Brasil somente 443 municípios brasileiros (8% do total) fazem coleta seletiva. O país perde anualmente 8 bilhões por ano quando deixa de reciclar todo resíduo reciclável que é encaminhado para aterros e lixões nas cidades brasileiras.

    Então o mau trato no planeta é feito por todos nós.

    Abraço!

  20. Kiko disse:

    Nosso pensamento é de curto prazo. Nos satisfazemos rápido, sem pensar nas consequências de longo prazo.
    Economicamente, incentivamos a escassez de alguns recursos, porque, para quem os fornece, o lucro é maior se a oferta é pequena e a demanda é grande. isso pode ser visto nesse post do Treehugger: http://bit.ly/o1Xdbe

    E sobre nossa imensa capacidade em tomar más decisões, sugiro esse TED do Dan Gilbert: http://bit.ly/oXuVdT

    Uma forma de mudar isso é através de consumo consciente e do uso das redes sociais para pressionar empresas a saírem do discurso. Sem demanda, não vai haver empresas acabando com o atum. Mas aí que eu quero ver quem abre mão de comer até explodir nos rodízios de restaurantes japoneses!

  21. Thiago Saramago disse:

    Fala Saulo,
    Primeiramente queria te dar os parabéns pela abordagem e intensidade ao falar sobre o assunto e depois convidá-lo para visitar meu blog (que por sinal faz tempo que não escrevo) e ler o post "Clichê Sustentável", onde falo um pouco sobre essa repetição e superficialidade que é tratado o assunto.

    Link: http://www.liquidideias.blogspot.com

    Abraço e novamente parabéns!!

  22. Wagner Andrade disse:

    Saulo, você tem razão! Muito se discursa e pouco se faz. Muitos se apropriam de um conceito, uma palavra, para maquiarem as suas verdadeiras operações, que estão distantes de um propósito sustentável, exceto claro, a sustentabilidade economica dos acionistas. Mas o fato é que existem sim, empresas e pessoas que estão nesse cenário agindo diferente. Buscam realmente contribuir de forma responsavel para o planeta. Pedir para que elas não gerem lucro é utopia.
    E nós? O que podemos fazer! Publicitários, jornalistas, arquitetos, engenheiros, todos nós. Observamos apenas? Seguimos nosso ritmo indiferente na sociedade? fazemos posts ou comments sobre o tema? Acredito que podemos fazer mais. Pense o que nós, enquanto individuos ou profissionais, podemos fazer para que nossa casa, empresa, clientes, comunidade, e até onde alcançarmos, contribua com a sociedade e o paneta. Vale a relfexão.

  23. @Quoos disse:

    Parabéns pelo tema, costumo ler o Blog e já não é a primeira vez que o tema é levantado. Sou Prof. de Geografia e tenho recomendado o Blog aos alunos.
    Com certeza a sustentabilidade que a maioria das empresas comentam é a sua própria sustentabilidade e não a que permite a manunteção da vida no planeta.

  24. Julia disse:

    Nossa, o seu post diz tudo! Afinal esses "recursos" são chamados de greenwashing, empresas que se dizem sustentaveis e no fundo tomam algumas medidas para maquiar o consumo e a poluição da natureza.
    Convido você a dar uma lidinha em um post que escrevi sobre isso usando campanhas publicitárias muito interessantes http://vai.la/2dIJ

Leave a Reply