LANGUAGE:

So long and thanks for all the fish

Segunda-feira, 6 de Junho de 2005 | 1:33 pm

Desde que conheci a obra de Douglas Adams, a versão cinematrográfica de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” se tornou um dos filmes que mais esperava nesse ano. E como sempre, quando mexem com livros clássicos como é toda a aventura de Arthur Dent, a expectativa é sempre acompanhada por um receio do tamanho do mundo.

Antes eu sempre cobrava fidelidade máxima nesses casos, mas com o tempo, ao aprender certos aspectos da linguagem cinematográfica e até por adquirir mais repertório, percebi que isso precisa ser relevado muitas vezes. Afinal, um livro e um filme são coisas bem diferentes.

Claro que o filme não é nem 20% do que é “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, as piadas são apressadas, as cenas parecem correr para que a próxima venha logo. Mas felizmente, o diretor Garth Jennings conseguiu capturar muito bem a essência do livro de Douglas Adams.

Tem em certos momentos a pasteurização do humor de Adams, tem inclusive um vilão e um amorzinho sem sal inventado para agradar aqueles que vão ao cinema por impulso pensando em comer pipoca e tomar refrigerante, mas a ironia, o humor ácido, a auto-depreciação de Adams está lá.

Apenas uma pequena parte, é verdade, mas me senti muito mais confortável ao perceber que as idéias centrais do livro vinham aparecendo uma atrás da outra. Mas, como disse, o filme é apenas uma pincelada do que é o “Guia do Mochileiro das Galáxias”.

Muitas piadas perdem a força, pois precisaram ser resumidas em duas linhas de diálogo. Personagens com importância primordial na narrativa original, simplesmente aparecem por poucos minutos na tela ou pior, nem aparecem. Mas tudo bem, vamos relevar. O filme é apenas um resumo e precisa ter as fórmulas chavões para levar gente pro cinema.

Mas “O Guia do Mochileiro das Galáxias” de Garth Jennings consegue ser um filme excelente. E deveria ser não só para quem leu os livros, que em minha opinião, se diverte muito mais do que quem não leu. Mas é preciso estar preparado para o non-sense, para as bizarrices que vão aparecer. Tanto o livro quanto o filme questionam a estranheza das coisas, e isso já dá uma boa noção do que esperar.

Quem não conhece “O Guia…” mas alguma vez na vida já viu Monty Phyton, sabe o que esperar, tanto que Douglas Adams também já participou do grupo inglês. Mas quem entra no cinema desprevenido, pode não entrar no espírito da coisa, tendo em vista várias pessoas abandonando a sessão quando o filme não havia chegado nem na metade.

Vai ver não entenderam a genialidade da cena inicial, com os golfinhos cantando e o texto de Adams quase intacto ou se incomodaram com as “intrusões” fantásticas do “Guia do Mochileiro…” e a voz em português de José Wilker. Ou pior, sequer perceberam que tudo o que a história faz é falar e tirar sarro de nós mesmos o tempo todo.

Sem contar a nobreza ambientalista de Adams sempre presente. Ele que era um ferrenho defensor dos animais, sempre mostra na história que na verdade nós humanos é que estamos sendo testados pelos ratos, e que golfinhos são muito mais inteligentes que nós, por exemplo.

Os puristas vão reclamar das mudanças, mas vão se divertir muito com os momentos inspirados do filme, que são muitos. Pena que os ratos aparecem pouco, mas os vogons estão caracterizados de maneira incrível, assim como o robô maníaco-depressivo Marvin, o meu personagem favorito da série.

Com a voz de Alan Rickman, Marvin ficou perfeito. Deveria ter mais meia hora de filme só pra ele, porque seus melhores diálogos nem apareceram. Bill Nighy como Slartibartfast também ficou excelente, só a cena em que ele aparece mostrando a construção da Terra já é antológica.

Sei que com a bilheteria fraca nos EUA, as chances de “O Restaurante no Fim do Universo” virar filme diminuíram. Mas espero que o culto e respeito dos ingleses pela obra de Adams não deixe com que a gana de ganhar dinheiro da Disney/BuenaVista impeça as seqüências de “O Guia…”

O filme de Jennings não é perfeito e derrapa muito quando tenta criar um programa familiar, que fazem muitos desavisados acreditarem que é um filme para crianças, tendo em vista e enorme quantidade de moleques de 7 a 11 anos na sala de cinema. Saíram com cara de sono, lógico.

Mas só por evocar a memória de “O Guia…” e mesmo que, de maneira apressada, colocar na tela do cinema o mundo imaginado por Douglas Adams, já torna o filme uma experiência saborosa. Porém, lembre-se, o filme é apenas um resumo. Se quiser conhecer e se divertir ainda mais, passe na livraria mais próxima do cinema e leve toda a série pra sua cabeceira.

Caregorias/Tags: Cinema
Compartilhe:

14 Comentários para “So long and thanks for all the fish”

  1. Rodrigo: Reply to this comment
    Segunda-feira, 6 de Junho de 2005 - 16:16

    Rapaz, sempre observo com entusiasmo os posts do Brainstorm, mas me decepcionei amargamente com este post.


  2. David: Reply to this comment
    Segunda-feira, 6 de Junho de 2005 - 18:05

    Mas o não foi o próprio Adams que fez o roteiro pro cinema?

    De qualquer maneira, é o tipo de filme que nasce da expectativa de um público específico. O problema é tentar dar uma aliviada no roteiro pra se tornar mais digesto aos não iniciados, e o que sai em geral não agrada muito a ninguém. Ainda assim é um filme divertidinho. Blé.


  3. fabs: Reply to this comment
    Segunda-feira, 6 de Junho de 2005 - 18:16

    Certamente o filme jamais chegará aos pés do livro. Mas eu gostei bastante. Mas é aquilo, no brasil existe uma visão muito errada do humor, e um grande preconceito tb. Não somos acostumados a pensar, isso é um fato. Muito menos pensar pra depois poder rir. Resultado, as pessoas vão no cinema e acham o filme extremamente chato. Mas morrem de rir com ‘Viva voz’, ‘Os normais’ e outros “‘beast’-sellers” oriundos de nosso tão amável território tupiniquim.


  4. daniel: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 8:53

    do jeito que a sociedade americana é burra, mandar garotos de 7 à 11 anos para lá e vê-los quebrarem a cara já é normal. A nossa que também não está acustumada à nada pensativo (não precisa ser muito pensativo, só um pouco), quer humor rasteiro, sensual e rápido. Só rir se for assim.

    O filme talvez faça mais sucesso na Europa, ou mesmo na Inglaterra mesmo.

    Mas os livros são sensacionais.


  5. NOFX: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 10:18

    NOFX - So Long And Thanks For All The Shoes???


  6. Thompson: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 11:34

    não vi o filme…..e a rosana Hermman disse que é muito “Mágico de Oz”….
    não estava animado…mas como Mágico de Oz é um clássico e a sua crítica, quase sempre me instiga a ver o filme, acho que vou até me aventurar….quem sabe depois eu te conto a minha opinião…

    abraços


  7. André: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 11:42

    Olá… sou do fundo da lata de lixo e sempre pego propagandas daqui (e ponho os créditos)… sou fã do Adams há um tempo… e acabei copiando esse post inteirinho pra lá… coloquei a ofnte é claro… espero que nã ose importe!

    Parabéns pelo site!

    abraços


  8. Thiago Aranha: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 16:44

    Confesso que tinha muita expectativa em relação ao filme, mesmo sem ter lido os livros da série. Adorei. O humor é inteligente e non-sense ao mesmo temop, bem ao estilo Monte Pyton de ser. Discordo sobre a má atuação. Achei que o cara que fez o Presidente da Galáxia estava muito bem, assim como o sempre surpreendente Mos Deff no papel do alienigena. Sai do cinema com mta vontade de ler os livros, vou correndo comprar. Abraço.


  9. AirJohnny: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 18:22

    Opa, não quero ser chato nem nada, aliás, nem tenho direito pra reivindicar nada. Só pra mostrar que nao esqueci, eheheh

    abraços


  10. Ramom: Reply to this comment
    Terça-feira, 7 de Junho de 2005 - 22:04

    Um comentariozinho.. o filme eu gostei muito, humor bem sutil.. quem nao entende acha bobo ou chato, eu ri o filme todo… as portas da nave programadas para fazer sons de prazer sao demais.. recomendo!


  11. Julio Santiago: Reply to this comment
    Quinta-feira, 9 de Junho de 2005 - 18:28

    Eu num li os livros e achei o filme simplesmente genial. Já vou comprar o primeiro livro da série. A cena inicial é simplesmente fantástica, com uma ironia sensacional. Como o Carlos disse (e devo concordar com ele, já que, em se tratando de filmes, nossas opiniões são um pouco diferentes), a cena da construção da Terra é antológica.

    A atuação é perfeita. Não imaginava que Arthur poderia se sair tão bem no filme. E vcs perceberam que ele não troca de roupa… O presidente (do qual não recordo o nome), é muito caricatural, o que o torna engraçadíssimo.

    Filme 5 estrelas sem dúvida.


  12. Thiago Aranha: Reply to this comment
    Sexta-feira, 10 de Junho de 2005 - 11:18

    O nome do presidente é Zaphod Beeblebrox.


  13. Julio Santiago: Reply to this comment
    Sexta-feira, 10 de Junho de 2005 - 14:38

    Valeu Thiago, mas vou continua sem lembrar. Complicado demais.


  14. BR@VO: Reply to this comment
    Segunda-feira, 13 de Junho de 2005 - 23:47

    Araços a todos!!



Arquivo por Data
* 2009: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2008: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2007: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2006: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2005: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2004: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2003: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
* 2002: Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec


Categorias Principais
AVISO: O sistema de comentários é disponibilizado aos usuários do Brainstorm #9 exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste site. Todo e qualquer texto publicado na internet através do referido sistema não reflete, a opinião deste blog ou de seus autores. Os comentários aqui publicados por terceiros através deste sistema são de exclusiva e integral autoria e responsabilidade dos leitores que dele fizerem uso. Os autores deste site reservam-se, desde já, ao direito de excluir comentários e textos que julgarem ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos, de alguma forma prejudiciais a terceiros, ou que tenham caráter puramente promocional.