Arquivo para o mês de Fevereiro de 2005
Quanto sangue você derramaria para ficar vivo?
Quando se trata de filmes de serial killer, podemos citar várias produções excelentes que explodiram nos anos 90. Porém, um deles parece ter se tornado um estandarte do gênero: “Se7en”.
Depois do neo-clássico de David Fincher, fica difícil deixar de citá-lo quando vez ou outra aparece um filme que se diz tão bom quanto Se7en. Aliás, superar os sete crimes capitais parece ter se tornado uma obsessão para produtores e diretores de filmes sobre assassinos em série.
Feito que até agora ninguém havia conseguido. Ênfase no “havia”. Isso porque “Jogos Mortais” do estreante diretor australiano James Wan, senão superou, pelo menos se colocou ao lado do filme de Fincher.
Acredito que algumas pessoas vão me crucificar por tal comparação, mas sinceramente, “Jogos Mortais” é do caralho. Há tempos eu não saia do cinema tão satisfeito, tão feliz por ter sido enganado pela história do filme e mesmo assim achar tudo aquilo demais. Resumindo, há tempos o cinema não apresentava um suspense com tamanha criatividade.
“Jogos Mortais” é um filme independente e estréia no Brasil num momento muito difícil para qualquer produção que não esteja indicada ao Oscar do próximo dia 27. Porém, arrume de qualquer jeito um tempo na sua agenda cinematográfica para conferir as sádicas estripolias do assassino Jigsaw (Quebra-Cabeças).
Começamos o filme dentro de um banheiro fétido junto com dois sujeitos acorrentados ao encanamento e um cadáver com os miolos estourados no meio. Eles são vítimas de Jigsaw, que os colocou no meio de um jogo cruel como já fez com tantas outras vítimas. As regras do jogo são simples: se você conseguir resolver a charada dentro do tempo determinado, volta vivo e louco pra casa. Caso contrário, vai morrer. E não apenas morrer, e sim ser estraçalhado de uma forma assustadora.
Enquanto os dois sujeitos vão encontrando as pistas deixadas pelo assassino para que resolvam a charada, o espectador é apresentando a diversos flash-backs que explicam como e porque aquilo está acontecendo. A narrativa vai sendo quebrada, e de uma forma não cronológica acompanhamos a investigação dos detetives, incluindo ai Danny Glover, que enfim escolheu um filme bom pra fazer.
Além da investigação, também vemos histórias paralelas que servem para exemplificar todos os joguinhos mórbidos e terrivelmente inteligentes de Jigsaw. E puta merda, que criatividade. Pode parecer sadismo, mas quanto mais via, mas eu queria saber sobre as “brincadeiras” de Jigsaw. Isso porque ele não mata ninguém, apenas coloca pobre-coitados em situações cruéis onde só dependem deles mesmos para se salvarem. E para Jigsaw, o que ele faz é apenas ajudar as pessoas.
As cortes na trama vão acontecendo, mas os dois sujeitos continuam lá presos no banheiro e sem saber como escapar dali. A coisa se torna cada vez mais complicada e o suspense de “Jogos Mortais” vai num crescendo e melhora a cada ato que em determinado momento me vi devorando os dedos, porque as unhas já tinha roído faz tempo.
O desespero das vítimas atinge diretamente quem assiste, fruto do surpreendente trabalho dos atores Cary Elwes e Leigh Whannell, este segundo também roteirista do filme. Tudo isso para culminar num final absolutamente espetacular, do tipo chuta-bundas, de deixar qualquer um de queixo caído.
Se você é daqueles que adora um final surpresa, que adora levar um tapa na cara quando o filme mostra que não é nada daquilo que você estava imaginando. Então meu amigo, “Jogos Mortais” é o seu filme. Uma suspense aterrorizante e extremamente criativo.
Eu gosto de classificar filmes pela sensação que eles me proporcionam, e na boa, “Jogos Mortais” tem um suspense tão arrebatador que sai do cinema vibrando e pedindo: “Eu quero mais filmes assim!”.
O diretor James Wan já anunciou uma seqüência para “Jogos Mortais”. Se for metade do que é esse primeiro, já vai estar de bom tamanho. Acredite.
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Maturidade infeliz
Costuma-se dizer que os filmes do diretor Alexander Payne fazem um sério tratado sobre diversos aspectos do “american way of life”. Como no ótimo “Confissões de Schmidt”, por exemplo, onde o personagem de Jack Nicholson percebe lá pelos seus 60 anos de idade, que sua vida foi absolutamente medíocre. Trabalhou demais, juntou dinheiro, ganhou um coração de pedra e no final das contas nada disso valeu a pena. Pelo contrário.
Mas será que os filmes de Payne tratam apenas da vida de um norte-americano médio? Será que a obsessão pela vitória é restrita apenas a sociedade americana? De jeito nenhum.
No meu ver, as perspectivas na vida e as conseqüências no final dela valem para muita gente neste planeta. A perseguição de objetivos que até então pareciam vitais, e em certa fase de vida perdem completamente o sentido quando descobrimos que existem coisas muito mais importantes, fazem parte da realidade de muitos.
E assim como Schmidt, Miles, o personagem de Paul Giamatti em “Sideways - Entre Umas e Outras”, vive a infelicidade na maturidade, só que desta vez na fase dos 40 anos. Miles é um escritor fracassado e Jack, seu melhor amigo, um ator de quinta. A fim de comemorar a despedida de solteiro de Jack, os dois viajam durante uma semana visitando vinícolas pelo extremo meridional da Califórnia.
E é nos vinhos que Payne encontra sua metáfora para dissertar sobre a realidade comezinha de seus personagens, numa espécie de “road movie” tragicômico. Durante a viagem os sentimentos vão se aflorando, e ambos os personagens começam a enfrentar tudo o que tentavam fugir até então. Principalmente Miles, que se embebeda para escapar de sua eterna depressão, mas sempre volta a ela.
Os dois se confrontam, pois enquanto Miles quer uma semana de sossego, degustando vinhos e jogando golfe. Jack quer tocar o foda-se e curtir o máximo possível antes de seu casamento. Porém, mesmo com objetivos diferentes, eles parecem não perceber que a felicidade pode residir no momento, na situação em si e não em algo que esta por vir.
O objetivo de Alexander Payne é mostrar que grande parcela da humanidade é incapaz de viver o presente, e apenas acreditam que a felicidade está no futuro ou nos bons momentos do passado. Assim é Sideways, que coloca a felicidade sempre num lugar distante e intocável.
Algumas mensagens no filme são claras, como diz Maya em certa altura, que os vinhos atingem seu apogeu em certa idade, mas que se passar do ponto começa o declínio inevitável.
Além de todo seu contexto dramático, Sideways tem uma capacidade incrível de criar situações cômicas. Em muitos momentos o público parece esquecer o drama da vida medíocre dos personagens, pois caem na gargalhada, quando temos um alívio a realidade totalmente angustiante de Miles.
Thomas Haden Church e Virginia Madsen tem excelentes atuações, mas é Paul Giamati que brilha no filme. É uma pena que apenas agora os críticos voltem os olhos para ele, um veterano de mais de 30 filmes. Não há explicação para a injustiça da Academia ao não indicá-lo ao Oscar de Melhor Ator, que já o tinha ignorado solenemente em “Anti-Herói Americano”.
Giamati exibe com maestria toda a complexidade de seu personagem em Sideways, atuando com uma naturalidade incrível. Mas se ele não foi reconhecido pela Academia, o mesmo não pode-se dizer do filme em si, que recebeu 5 indicações ao Oscar: Filme, Diretor, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado. Sem contar os 2 Globos de Ouro que ganhou, como Melhor Filme - Comédia ou Musical e Melhor Roteiro.
Sideways é divertido, dramático e muito realista ao mesmo tempo. Trata os sentimentos e os erros que cometemos para dar valor a eles com uma grande sinceridade.
Mas no fim das contas, Sideways pode parecer um filme conformista, já que ao invés de mudar nossos destinos, devemos esperar por algo que sirva como uma salvação, como um amor, por exemplo. E esperar algo acontecer para que nossa vida mude, sem se esforçar muito para a mudarmos nós mesmos, não parece a melhor coisa a fazer.
Acho que ainda temos todas as armas nas mãos para sermos felizes e evitarmos a maturidade medíocre dos personagens de Alexander Payne. Ou não. Vai depender do ponto de vista quando você tiver seus 40 ou 50 anos.
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I’m gonna leave this city, got to get away
Nós que vivemos em grandes metrópoles, ficamos presos no trânsito, nos esprememos em filas, ônibus lotados e afins, é como uma benção quando surge a oportunidade de nos esticarmos em uma rede, respirar ar puro e não pensar em mais nada. Claro que no fim das contas precisamos e até queremos voltar para a correria da metrópole, mas nada como alguns dias de “liberdade”.
Isso é bem atual, mas já há 20 anos a discussão entrou em voga na França através de uma célebre campanha publicitária da Renault. Em 1984, a montadora francesa bancou diversos comerciais puramente conceituais para o lançamento de seu novo carro, o Espace, que tinha como premissa unir tecnologia, conforto e espaço.
Todo o conceito da campanha tentava demonstrar o quão importante é ter espaço, que isso era um verdadeiro luxo naqueles dias (e continua sendo ainda mais nos dias de hoje). E naquela época, basear um anúncio todo em imagens conceituais, sem ligação direta ao produto, era algo extremamente arrojado e inesperado.
A campanha se tornou tão famosa na Europa não só por isso, mas também porque manteve ao longo dos anos a fidelidade do posicionamento na construção da marca. A Renault promoveu ações metafóricas por toda a França. Em 1998, por exemplo, a empresa mostrou numa feira, dentro de baias envidraçadas, imagens gigantes de baleias e golfinhos livres no mar.
Em Dezembro do ano passado, a Renault comemorou os 20 anos do Espace lançando uma nova versão do veículo e, consequentemente, uma nova e badalada campanha publicitária, comandada pela agência Publicis Consei (aqui no Brasil representada pela Publicis Salles Norton).
A idéia da campanha é reinventar a equação “luxo = espaço”, utilizada desde o surgimento do Espace no mercado automobilístico. Mantendo uma exploração mais psicológica do benefício, a Renault construiu o que chamou de “Espaço Vital”, que pôs em cena a experiência individual mostrando um lugar vazio no meio da multidão.
Na TV, o anúncio da edição de 20 anos do Espace também vai pelo mesmo caminho metafórico. Como um road movie, o comercial conta a pequena aventura épica de Hector, um homenzinho em preto e branco saído diretamente das tirinhas de um jornal.
Rompendo seu pequeno cubículo, o “desenho” escapa da tirinha para atravessar e percorrer o mundo. Termina por chegar em uma colina, que à sua escala parece uma grandiosa montanha e, assim, descobre a imensidão do planeta. Entra o título: “Isn’t space the ultimate luxury?”, algo como: “Não é o espaço o verdadeiro luxo?”.
O automóvel? Nem sequer aparece durante a história, apenas durante os segundos finais como uma assinatura. A trilha sonora é perfeita para ilustrar a aventura de Hector, embalada pela música “Going Up the Country” da banda sessentista de blues Cannet Head.
É um filme belíssimo. Engraçado e emocionante ao mesmo tempo. Recorre a uma metáfora para transmitir o conceito idealizado, sem apelar as velhas e ineficientes fórmulas da propaganda automobilística.
Além disso, utiliza um personagem simpático que busca um objetivo nobre, cria uma relação estreita de respeito e admiração com o consumidor, uma ligação emocional com quem se identifica com a idéia. Um verdadeiro trabalho de construção de marca. Isso meus amigos, é definitivamente a publicidade do século 21.
Clique aqui (botão direito - Salvar destino como…) para fazer o download do filme em formato .MPG. O arquivo tem 4.77 MB.
It just tastes better
A imagem está ruim, eu sei. Mas não poderia deixar de publicar aqui esse anúncio criado pela .start GmbH da Alemanha para o Burger King.
O título diz: “It just tastes better”.
Intitulada de “Undercover”, a peça foi premiada com Prata no Festival de Nova York 2002 e Ouro no Cresta Awards 2002.

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